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Poeta e apenas poeta

Já me olharam espantados quando digo que sou poeta e só poeta. Que não canto, nem danço, nem atuo, nem pinto, nem bordo, que "só" ...

sábado, 5 de junho de 2021

Confessionário

Nosso altar, nossa benesse
essas são noites tão frias
sem aquarela, sem prece
de suas mãos sobre as minhas 

Irmã minha que padece
cúmplice da mais vadia
vontade que nos aquece
e sonha todos os dias

Cecília, pelos seus olhos
eu me via bem melhor
do que sou, fui ou serei

Sim, sou eu de sonhos falhos
mas ainda sei de cor
os olhos que mais amei

quarta-feira, 26 de maio de 2021

terça-feira, 25 de maio de 2021

Sampa, uma mímesis da Paulicéia Desvairada

Mário de Andrade dá como mola propulsora de seu prefácio como advindo de uma ideia crítica de um editor ao seu livro. A sugestão orientava para que o poeta criasse uma apresentação para seu livro de poemas, uma forma de orientar seus leitores na leitura de seus versos, entretanto questiono esse caráter meramente didático das páginas iniciais de seu livro. Há ali elementos que passam muito ao largo da mera explicação e são, sobretudo, uma prescrição de como a poesia irá se comportar pelas páginas posteriores do livro Paulicéia Desvairada.


Não costumo ler prefácios. Costumo partir logo para o texto propriamente dito, porém Mário de Andrade, ao nomear o seu como "Prefácio Interessantíssimo", aguçou minha curiosidade. Eu quis saber se era pretensão ou chiste do autor a motivação que o levava a inaugurar assim seu livro Paulicéia Desvairada. E posição do autor: “Aliás muito difícil nesta prosa saber onde termina a blague, onde principia a seriedade. Nem eu sei.” não facilita em nada essa investigação. Confesso que terminei o prefácio e li cada poema com essa dúvida em meu paladar. 


Seu prefácio é um convite à investigação, uma verdadeira armadilha de ideias colocadas, engenhosamente, umas sobre as outras. E ao confrontar poemas e prefácio surgem gratas surpresas esperadas. E tenho fortes motivos para acreditar que é jogo de cena do seu próprio lirismo quando afirma que  "Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita" e diz logo mais que seu prefácio é uma justificativa a posteriori da obra acabada.


A estrutura de seus versos é completamente contrária a essa afirmativa de escrita inconsciente há um cálculo, uma estruturação metódica verso após verso que cria toda uma estrutura dificílima de crer como obra de uma escrita não calculada. Entretanto, se o eu lírico se arroga de ser um demiurgo que pode falsear todas as palavras de sua obra. Ele não pode, ainda assim, se esquivar do fato que existe uma obra e esta obra, dentro de sua lógica interna, possui seu próprio valor de verdade.  


Por mais que, ao longo da sua introdução, a voz do texto reafirme a impossibilidade de saber a verdade. O texto a possui ( a verdade) mesmo que não possa ser extrapolada para além de suas páginas. A questão da flecha atingir o alvo ou de se atirar a flecha e depois pintar o alvo ao redor é uma questão que objetiva divertir o seu lirismo mais do que ser uma questão passível de resolução. Com essa aporia parto para a análise da possibilidade de que há sim uma lógica interna entre a prescrição que consta no prefácio e os poemas subsequentes.


Mário de Andrade em seu prefácio da Pauliceia Desvairada discorre longamente sobre a estrutura da poesia, propõe seu próprio método para se contrapor ao vigente e considerado por ele arcaico em comparação às outras artes como a música que há muitos séculos já teriam abandonado o uso de uma estrutura meramente melódica. E em oposição, a esta estrutura, propõe o verso harmônico e mais declara guerra à rima, lembrando que Homero dispensava as mesmas e tinha assonâncias admiráveis.  Entretanto, mantém aberto o espaço para a galhofa ao dizer que: "A língua brasileira é das mais ricas e sonoras. E possui o admirabilíssimo “ão”.  Porém o que parece ser uma piada descompromissada com a rima que é talvez a mais pobre da língua portuguesa, que os manuais da boa poesia recomendam evitar,  é na verdade a primeira prescrição de como se dará a poesia dessa obra.


Diz Brandão em seu Consciência e criação na poesia de Mário de Andrade:


“Nesse sentido é que me parece que os metapoemas de Mário de Andrade representam uma de suas contribuições para o "ajuste do pas so" da poesia brasileira com a concepção e a prática da poesia mo derna. Isso se dá na medida em que ele caminha pelos poemas, princi palmente no "PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO", rompendo sua unidade lírica através da fusão de elementos de teoria, de história, de confissão pessoal, de exemplos, de postulações críticas, etc., tudo fundido com os materiais e procedimentos criativos que ele tem à mão, incluindo-se também os seus próprios condicionamentos poéticos, re conhecidos ou não.”


Entretanto apesar de indicar os elementos constitutivos da poética que são indicados no prefácio Brandão não procura ao longo de seu texto investigar a presença e permanência dessas estruturas nos versos que compõe a Paulicéia Desvairada. 


O “prefácio interessantíssimo” é mais do que uma apresentação do seu texto, Mário de Andrade constrói um conjunto de regras, um sistema de normas e restrições com os quais irá construir os poemas do livro. Algo bem parecido com o que o OULIPO irá propor algumas décadas depois. Talvez Mário de Andrade seja também "um rato que constrói seu próprio labirinto de onde se propõe a sair.” tal qual os membros do OULIPO viriam a se identificar.


Como exemplo do percurso que o poeta segue em sua construção poética temos justamente o uso de rimas em ão como prescreveu em seu prefácio como aparece no início do poema "Paisagem nº1":

"Necessidade a prisão 

para que haja civilização?"


E também no poema Tristura:

"Profundo. Imundo meu coração... 

Olha o edifício: Matadouros da Continental. 

Os vícios viciaram-me na bajulação sem sacrifícios... 

Minha alma corcunda como a avenida São João…"


Que não por acaso Caetano Veloso bricola em sua canção "Sampa":


"Alguma coisa acontece no meu coração

Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João"


O poema Tristura de 1922 e a canção Sampa de 1978 igualmente iniciam com uma rima em -ão, com o mesmo par de palavras: "coração" e "João"  Uma rima que foge totalmente do esmero da poesia que foi hegemônica por séculos.  Mário de Andrade ao fazer do prefácio do Pauliceia Desvairada seu novo "tratado de versificação" eleva a rima em "-ão" a posição mais nobre de seus versos e Caetano retoma essa tradição. 


O poeta Mário também retoma o elogio que fez às assonâncias das obras de Homero e esse recurso retorna recorrentemente nos poemas de sua própria lavra. Os poemas de Paulicéia não possuem rimas externas com frequência, sua harmonia se assenta pelas diversas rimas internas, aliterações e assonâncias.


O primeiro poema do livro: “Inspiração” já nos entrega uma amostra da assonância que será traço comum ao longo dos poemas da Paulicéia:

“Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes... 

Perfumes de Paris... Arys!

Onde vemos em apenas dois versos a assonância de "sutis'', “Paris” e “Arys”, a rima interna entre as palavras: “ciúmes e “Perfumes” e também a aliteração de “Perfumes” e “Paris”. 


Também presente no poema “O Trovador” :

“Intermitentemente...

na minha alma doente como um longo som redondo…”


Percebemos as aliterações de “m+vogal” a rima interna e externa de “intermitentemente” e “doente” e finaliza com outra assonância em: “longo e “redondo


Entre os versos de “Rua São Bento” temos:  “Pobres brisas sem pecias lisas a alisar!”  com a similaridade dos sons de “Pobres” e “Brisas” e a aliteração de “pelúcias”, “lisas” e “alisar.


Em “Os cortejos”

Monotonias das minhas retinas... 

Serpentinas de entes frementes a se desenrolar...

Percebemos as rimas internas de “Monotonias”, “retinas” "serpentinas" e a assonância de  “entes” e “frementes”


Na Canção Sampa do Caetano Veloso podemos ver a inspiração estilística desse recurso nos versos:

Da dura poesia concreta de tuas esquinas

Da deselegância discreta de tuas meninas”


e nos versos:

“Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto

Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto


As assonâncias, aliterações e rimas internas são marcas estilísticas do livro Paulicéia Desvairada e também da canção Sampa. Mário de Andrade construiu uma estrutura poética para seu livro que foi um marco da visão da cidade de São Paulo. A sua visão da cidade e sua estilística foram usados por Caetano Veloso para recompor o cenário da cidade meio século após a publicação de Mário. É como se apesar das formas aparentes terem se modificado muito ao longo desse período a estrutura, sua essência, fosse a mesma. O uso dos mesmos recursos é uma forma de dizer que a São Paulo de Paulicéia e de Sampa ainda são a mesma cidade apesar do abismo do tempo e do primeiro olhar que são vistas.


Mário de Andrade propõe um novo tipo de verso, o verso harmônico em contraposição ao verso melódico. Em seu prefácio apresenta o verso melódico como o verso tradicional, estruturado em uma lógica gramatical, contrapondo a ele o verso harmônico cuja principal natureza é de ser liberto da estrutura de sentido, da gramática. O Verso harmônico reverbera sua sonoridade independente da conexão com o sentido. Seu som é o que mais importa.

Vemos versos harmônicos no poema “Inspiração”

“Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e ouro…”


No poema “Rua de São Bento”

“A cainçalha... A Bolsa... As jogatinas…”


e também no poema “Tietê”

“Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas... Povoar! 

Ritmos de Brecheret!... E a santificação da morte!

Foram-se os ouros!... E o hoje das turmalinas!...”


Caetano também se inspira na Pauliceia e sua teoria engenhosa ao compor os versos “Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba

Mais possível novo quilombo de Zumbi

E os novos baianos passeiam na tua garoa” 


Ao comparar os versos de “Tietê” com os de “Sampa”  temos um primeiro verso harmônico cuja sonoridade é sensivelmente mais apreensível que seu conteúdo discursivo seguido de versos onde a sonoridade apesar de forte ganha um conteúdo discursivo mais evidente e de apreensão imediata.


A mimesis estilística que Caetano Veloso faz da obra Paulicéia Desvairada em Sampa, tem no prefácio interessantíssimo da obra de Mário de Andrade o conjunto de seus contraines usando os princípios do OULIPO pois acredito que a Tropicália não importou apenas as guitarras elétricas mas  também toda a vanguarda estrangeira. Todos os experimentos de expressão da linguagem musical e também poética.  Sampa tem em seus versos um diálogo nos mesmos termos daqueles presentes na Paulicéia. O cantor baiano ao revisitar a poética do escritor paulista e resgatar sua estilística  suscita e instiga toda sorte de questões e nos trás mais perguntas sobre a força que ergue e destrói coisas belas.


A Garoa que cai sobre a Paulicéia é a mesma que molha Sampa? Os demônios do progresso que inquietaram Mário, são os mesmos que Caetano encontra nas duras esquinas de Sampa? O timbre da Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa com os Demônios da Garoa, fala da mesma São Paulo, aquela da semana de 22, que muito tempo depois, abraçou a tropicália. Aquela que se embalou no antropofagismo que misturou guitarras elétricas com ritmos brasileiríssimos? Qual a verdadeira realidade que interliga tanto sonho feliz de cidade?


Mário de Andrade também escreveu Paulicéia Desvairada para percorrer a cidade de São Paulo em seus momentos de transformação, inaugurando um novo século,  enxerga ali suas contradições, recorta e cola suas impressões do que viria a ser a mais importante metrópole da América Latina. Caetano Veloso, mestre da bricolagem musical, encontra uma São Paulo que não é mais uma promessa de progresso mas sim o símbolo mais pujante da industrialização do país. Há indícios para desenhar uma cartografia literária que une a poética de Caetano a prosa de Mário, contornos que marcam o estilo de ambos ajudaram a moldar a identidade que São Paulo tem hoje.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Sinfonia

seu sexo em si
meu sexo bem lá
um sexo tão só
num sexo que ar fá
mais sexo pra mi
seu sexo de ré
só sexo sem dó

sábado, 15 de maio de 2021

Eu não queria te dizer

Sou meu vendaval:
o meu pé de vento
serve de sustento
pruma flor astral

São rosas de vidro
que contra meu peito
quebram e me cortam
com amor e doçura

Gotas de meu sangue
mancham minha blusa
branca de algodão
que a fome recusa

Sexo na varanda
e macarronada
Beijos pra torcida
e fim da estrada

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Cachimbo D'água

Meu fumo, de levíssimas tragadas
um ato solitário, prazer
que atiça meu suavísssimo esquecer
de anéis de fumaça, bolhas d'água

Louvo as felicidades tão sagradas
da fumaça, dos pulmões, do meu ser
me entorpece, me atiça e faz viver
em tantos tragos nas cinzas apagadas

Seda, piteira e isqueiro par a páreo
e prontos pra dançar com meu veneno
nas médias medidas da escansão

Morros, montes, relevo solitário
da janela contemplo o belo extremo
Nuvens e prédios, uma só visão

segunda-feira, 26 de abril de 2021

excrementíssimo senhor

Das mentiras numa rede
sangue nas mãos e nas urnas
um copo de ódio sua sede
não mata mas rega as ruas

Justiça implora e lhe perde
as verdades das mais cruas
Telhado se fez parede
de vidro e regência nua

Casa de vidro é palácio
da milícia e da morte
que ceifa num só cardume

a vida que de tão frágil
esvai sem logro ou sorte
sob o mando dum estrume

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Aldravia 8

Eu
Sinto
Tanto
A
Sua
Falta

sábado, 3 de abril de 2021

Aldravia 7

Quanta
Quarentena!
Sozinho
Sem 
Minha
Morena

Aldravia 6

Minha 
Glande
Penetra
Seu 
Esfíncter
Engole

Aldravia 5

Sol
Poente
Sangra
Vermelho
Todo
Céu

Aldravia 4

Meu
Falo
Seu
Felar
Gozo
Abundante

Aldravia 3

 Meus
Pés
Sua
Língua
Encontro
Perfeito

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Aldravia 1

Pinga
Fogo
Risca
Faca
Boteco
Cachaça

Aldravia 2

Com
Cordas
Ato
O
Seu
Gozo

quarta-feira, 31 de março de 2021

Minha doce Pêra


A pêra queixosa fica pelos cantos
seu amor lhe usa só de vez em quando
sonha com as velas, as cordas e tantos
os prazeres que fica salivando

É faminta mulher cheia de encantos
é latifúndio pra ser invadido
com desejos cruéis que causa espantos
aos homens muito aquém do desejado

Diga os seus mais profundos dos anseios
suas vontades submissas, masoquistas
e tão, tão pervertidas que me soam

tal canção de ninar nos doces seios
duma devassidão das mais narcisistas
que das marcas sorri por mais que doam

Prum poema apaixonado

Tenho guardado meu verso
bem medido bem contado
de modo que não esqueço
prum poema apaixonado

Minha frente meu avesso
nos dedos escancionado
em lirismo todo imerso
prum poema apaixonado

Leio, releio, converso
que é tesouro lapidado
com seu brilho mais intenso
prum poema apaixonado

São palavras ao acaso
como quando jogo um dado
que abole o gosto e o senso
prum poema apaixonado

quinta-feira, 25 de março de 2021

Dúbios Deleites

Seu corpo delicado, meu declive
descendo suas curvas tal quem pinta
O mais intenso quadro que em nós vive:
nosso suor, saliva e gozo é a tinta!

Seu corpo terra chã pra que eu cultive
nosso prazer e a fome nunca extinta
A mais terna tortura que já tive
lhe ver nua, sedenta e tão faminta!

Temos nossos delírios, nossos sonhos
que sussurramos entre nossos lábios
desejosos um do outro mais e mais

Temos nossos desejos e carinhos
que machucam a pele para dúbios
deleites amarrados em seus ais


domingo, 14 de março de 2021

Gabriela,

eu não dou conta mais, não tem escala:
acordo e vou dormir pensando em ti...
durmo mais de doze horas e não para!
meu coração não para de sentir.

borderline, limítrofe que fala
o psiquiatra fala para mim:
que tenho que entender mas não repara
o fio que me corta a frio assim.

não, não me compreende, só me acusa
de não ser neurotípico e ser vil,
machista, torto, errado e bem malfeito!

sei que não tem qualquer que seja a escusa
pra que eu tenha esse péssimo perfil
de quem não tem conserto ou mais jeito!

domingo, 7 de março de 2021

Victória

cinco dedos espalmados
nas nádegas eritemas
com seus gemidos safados
que inspiram poemas

Nos nistagmos excitados
de seus olhos, doce pena
e num tenesmo plugado
que as lagrimas encena

lambendo meus pododactilos
em diplopia no entesado
do sexo que lhe desperta

rebola em pélvicos circulos
num borborigmo calado
quando o falo lhe penetra

Miau

Minha gatinha toda grata
plugada miava eterna
fome e jura insensata
e soltava a pilhéria
declarando se por tudo
seu amor tão torto e escuso

A mais safada, vadia
e obediente do gatil
Meus pés ela me lambia
dum jeito meigo e servil
abanando seu rabinho
implorando por carinho

Ronronava tal uma gata
se esfregava nas pernas
minhas totalmente grata
por deixar numa baderna
molhada o sexo miúdo
que ansiava um gozo imundo

Sua língua nada sacia:
mãos, pau, pés, tesão a mil
como mestre ela me via
solta um gemido sutil
por meu dedo em seu cuzinho
deixando meu pé limpinho

sexta-feira, 5 de março de 2021

Minha cobiça

Sente-se mais viva
nas juras eternas
sabor de saliva
pernas entre pernas

Você me vicia
com sede, com fome
e com a volúpia
intensa sem nome

sua mão vazia
trêmula nas minhas
em forte carícia
como ervas daninhas

Que brotam vizinhas
na veia a semente
feita verso e linha
amor simplesmente

num pulso pungente
o não entre o sim
que na cama prende
você feita pra mim

Não diz que não sente
o gosto do gin
que logo se rende
tão cativa no fim

quarta-feira, 3 de março de 2021

Cecília

Ela começa com uma pergunta
antevendo minha resposta singela
Eu falo ela escuta sua boca coça
e me contrapõe com galante enleio
Ela me ensina sobre arte contemporânea
ouço atento transcrevendo em sílabas
poéticas, métricas e rimas
Ela me fala do concreto, dos bichos
móveis de Lygia Clark e Hélio Oiticica
Eu diminuo a velocidade do carro
esbarro minhas mãos em suas coxas
e repenso a filosofia procuro
um argumento na minha língua
Estou aprendendo como nunca
seus olhos brilham e rimos, sorrimos
juntos de uma piada boba
A viagem se alonga e não me importa
a estrada é nosso melhor destino
Rimas, tintas, história e coisa e tal

vocabulário

Respire, tome seu ar,
tenho fome das palavras,
bem trancadas, nessa boca.
Essas que mandam as favas
o pudor, da carne pouca,
que tampa sua vergonha
de menininha direita.
Quero logo que se ponha
em posição de que aceita
na cara as palavras sujas
e a expressão mais imunda.
Até mesmo aquela cuja
a palmada mais fecunda
de seu bumbum faz lembrar!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Sade e a efemeridade:

não menos indiferente 
ao que farão de tuas cinzas 
do que poderias ter sido, 
a  antes de teu nascimento

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Trova Quarenta e sete pra meia noite

De gangorra com a forca
eu brinco com meus passados 
que repasso a ferro e fogo
nos anseios que me mordo

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Lentamente

Minha virtude, meu mote
não mais me diz quem eu sou 
muito menos porque vivo
Não tenho mais essa sorte
que do meu peito passou
me resta o frio cativo

Não sei bem quem mais errou
por mais que viro e revivo
não acho qualquer resposta
Tantos meses se calou, 
meu lirismo tão altivo,
de mim mesmo se desgosta

Qual verdade, qual meu crivo,
do pesadelo uma amostra
que do gosto me ressinto
Dessa sala não me livro
migalhas na mesa posta
é o q'Eu como tão faminto

Perdi o jogo, perdi a aposta
nem lavra, ouro ou quinto
me resta desse desejo
Das montanhas até a costa
acabei-me por extinto
todo gosto de meu beijo

Minhas mágoas de absinto
no meu quarto de despejo
guardo minha melhor veste
Manchada de vinho tinto
que lambo, esfrego  e almejo
com toda sede do agreste

No caco d'espelho vejo
o meu sangue e minha peste
minha humilhante derrota
No embalo do realejo
mecânico e inconteste
cuja melodia me corta

Não há um deus que me ateste
que me indique a certa porta
d'esperança e acalento
Não há diabo que se preste
a me contar uma lorota
que me afaste esse lamento

Não há jardim e nem horta
onde eu colha o sacramento
ateu duma vida bela
Espinho seco, flor morta
sem horizonte no firmamento
sou nau sem mastro ou vela

Testemunho e testamento 
minha herança e sequela
de coração aleijado
Desatino desatento
escondido na janela
do meu quarto rejeitado

Aqui jaz a sentinela
do anjo roto e maltratado 
que quis o meu bem querer 
Hoje é quadro d'aquarela
em lágrima aquarelado
me pintando sem me ver

Tento e tento ter cuidado 
ao meu pranto recolher 
destilado num só frasco 
Suturado e retalhado
sucessivamente ser
sendo meu algoz carrasco 

Venha, venha logo ver
não é ensaio de teatro 
nem coroa dum infante
Meu ocaso é pra valer
sem pudor e sem recato
jaz em dois o diamante 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Valiosa

Ela foi, sem menor dúvida, seu maior sonho já concretizado e quando findo sabia que era um trabalho ímpar. Não sabia bem porque, mas não lhe convinham olhos verdadeiros, em sua face de fada lapidou como ourives duas pedras de jade.

Tinha lhe feito com as curvas mais delicadas e uma boca tão rubra quanto bem tracejada. Entre os lábios uma língua muitíssimo apurada e a tez ao menor toque ou roçar se eriçava. Ouvia o bater de seu coração mesmo nos instantes de calma e quando ele nervoso ouvia o gritar sua alma. Quando ele chegava sabia de longe pelo olfato tão apurado e sempre estava encantadoramente bem perfumada.

Nunca o vira e nem podia sequer admirar a sua própria beleza que fora tecida por ele. Pois seus olhos eram de jade! Mas eles lhe caiam perfeitamente com sua profundeza sem fim...

Ela a cada toque mui deliciosamente gemia, soando-me como a mais bela e formidável sinfonia. Sua voz tão doce e delicada foi, por ele,  afinada. Dela eram as melhores carícias qu'ele recebia em toda sua vida e também ela rapidamente os pontos mais sensíveis dele descobria. Por ele cada gesto fora ensinada e nos toques de amor tornou-se requintada.

Adormecida seus olhos beijava, as frias pedras eram nela sempre cálidas. Nos seus olhos de jade nunca havia lágrima ou tristeza, somente a felicidade de Rei e Princesa.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Foi sério mesmo

 você me tirou

do duo do spotify

apagou meu avatar

na conta da netflix

mudou a senha do wifi

tudo para eu não voltar

a contracenar contigo

cenas que nem no reddit

xnxx, pornhub ou redtube

encontrará tanto prazer

tanto orgasmo e satisfação

Juntos somos melhores

que qualquer sessão

profissional ou amadora

Nossos gemidos

a melhor trilha sonora

que não vai encontrar

nem na amazon music

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Camilla

Eu conheci uma garota
o seu nome era Camila
uma Menina direita, 
uma Menina tranquila

o seu chá de camomila
bolado pro punk na certa
olhos rubros de neblina
mocinha muito da esperta

e nos lábios de Camila
- a blusa o mamilo alerta -
os dedos faziam fila
no anexo à praça liberta