Publicação em destaque

O autor

Lucas de Castro Lisboa, que adotou o nome artístico de Castro Lisboa e a persona pública de "poeta sobre trilhos", é um poeta, edi...

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Trova da bola quadrada

Pega o pique da criança
Copo d'água, beber onça 
Chiclete, vitrola e dança 
Gambiarra geringonça 

sábado, 12 de setembro de 2026

Biblioteca Central

Não, não é possível disse
eu, mulher estudiosa
na véspera duma prova
apelei pros três patifes
de proposta indecorosa

Era noite como breu
entre uma integrada 
Composta ou derivada 
o meu logos percebeu 
que eu estava lascada. 

joelhos nos cadernos
Ninguém pra me acudir
só Ódio pôde garantir
nos prédios desertos 
uma chance de redimir

Era noite como breu
Terrível fez a proposta
meu corpo era a aposta
e pra cada curra e créu
na prova uma resposta

joelhos nos cadernos
Ninguém e Ódio gentis
em mim desejos senis
para serem eternos
como eu bem me quis

cada livro na conta
da biblioteca virou
uma bondade Terrível
corpo quente que me encanta
num prazer indescritível

Quem me comeu me come
na palmada da mão 
é cão caramelo e não 
o que queria lobisomem 
eu ter para minha fome

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

De Leminski para Cortázar

Cortázar, pugilista, diz que vence

ponto por ponto, até o gongo, o romance:

eis personagem, tema, cena, enredo,

acaso, clímax, fel, tensão e segredo.


Cortázar, pugilista, diz que a chance

do conto é o nocaute num só lance:

eis veloz e preciso, corte seco,

consequência e causa logo cedo.


Mas o soneto não diz que diz nada:

executa seu verso a verso e só,

inspira, pois respira e transpira.


Eis a palavra pura, ritmada:

levanta do tatame todo o pó —

o mestre e seu kata, no kiai, gira.



quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Acelerado 2

eu quero fundo
num gozo raro
e quero raso
num riso solto

não sei se passo
ou não do ponto
no que me aposto
sem um centavo

eu quero à vista
de um sonho cego
e quero a prazo
desregulado

não sei se fico
num beijo morno
ou se lhe mordo
feito um cachorro

sábado, 22 de agosto de 2026

Solfejo

sátiro saca a sereia
sem sal sem sol e sozim
saci na sombra salgueira
surubão de surubim

seca o charque cerca a ceia
serelepe serafim
sacode suga e salgueia
surubão de surubim

sinhá sáfica semeia 
sete saltimbancos sim
sá seu som saracuteia
surubão de surubim

sátiro saci sereia
saboreiam salgadim
seu saltimbanco semeia
surubão de surubim

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Dois gatos, duas crianças e uma mãe

a mesa quebrou 
e assim foi ficando 
a vida acontece 
e a mesa quebrada

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Sumi-ê

Vale

no rio que pisca
e pela flor que lateja
vem fecundo orvalho

Banho

na cava a flor pisca
e faz a nuvem e o rio
latejar orvalho

Fastio

reza flor, lateja
no canavial de pau
que pisca no orvalho

Ela

lembra e o cu pisca
lhe conta e o pau lateja
brilhando de orvalho

Memória

diz a flor que pisca
ouve o rio que lateja
carnaval e orvalho

Festa

na capina o cu
pisca canavial no rio
de suor e orvalho

Ele

no pau que lateja
vem orvalho-carnaval
pelo cu que pisca

Fresta

que corta o carvalho
como rio que lateja
numa flor que pisca

Fim

não mais cu que pisca
pau não lateja, lamenta
verão pro caralho

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Haicai Trem, amor e tráfico

me guardou as costas
mas me fez anjo da guarda
noite na quebrada...

sexta-feira, 27 de março de 2026

Augusto de Lima com Belchior

senta no banzai
e cai na mesa um haicai
bêbado bonsai

quarta-feira, 25 de março de 2026

firmamento

no mandacaru
cai cada estrela e se enreda
sertão bacurau

terça-feira, 24 de março de 2026

Outrora

guizo de serpente 
antes do bote o bodoque
menino valente

Muqueca Mitológica

aterrado nela
triste tritão terminaste
frito na panela

Arcádia Tropical

menino caipira
filho da chuva e do estio
na rede se estira

Alexandria

para toda traça
as ilíadas e os idílios 
têm o mesmo gosto

quarta-feira, 18 de março de 2026

Gritaria de verão

bilhar de cigarras
pelas paredes da sala
cabelos-caçapa

Polém de primavera

tropeço na língua 
o poeta cata sílabas
com versos à míngua

Xangô tropical

zumbe o pernilongo
cantando no pé do ouvido
um tapa em vermelho 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Achados & Perdidos S.A.

Chovia, e o almoxarife registrou:

— Ana —
sombrinha que jamais teve.
Objeto encontrado, protocolo assinado.

— Marina —
coração que não perdera ali.
Objeto encontrado, protocolo assinado.

p.s.1:
A válvula mitral gasta era perfeita, vazava, 
e enchia de frio a barriga de Marina. 

p.s.2:
Ana chegou em casa seca.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Achados & Perdidos S.A.

Ana, num momento de tempestade, busca um guarda-chuva orfão na sessão de achados e perdidos. Chega e, sem culpa ou pudor, diz: “perdi uma sombrinha preta de cabo marrom”,

E logra que, entre tantas combinações de plástico, madeira e metal, fosse esta a mais comum. Depois, assina o protocolo e se evade sob os olhos desinteressados do almoxarife, que sequer se dá ao trabalho de questionar.

Mas Marina, atormentada, vendo naufragar suas esperanças, queria um coração. Dirigiu-se ela ao setor em que se encontrava de tudo que, por esquecimento ou descarte, estava ali esperando pelo antigo dono: “sim, um coração, vermelho, pulsante, com dois ventrículos, uma veia cava, uma artéria aorta, quatro válvulas; a mitral está um pouco desgastada”.

O almoxarife calçou suas luvas cirúrgicas, remexeu entre pulmões, olhos, fígados e rins até achar a coleção de corações. Lá estavam eles; repassou a descrição de Marina — “válvula mitral” — e trouxe para ela dois exemplares.

Marina olhou, examinou e, tentando passar naturalidade, escolheu, escondendo o tremor de sua voz: “o da direita”. 

O almoxarife, desinteressado, passa o protocolo; ela assina, já divagando consigo sobre se sua sorte não mudava, a partir de agora, ao fazer as coisas direito.

Em seu quarto, acoplou no peito o novo coração, tudo perfeito; até mesmo o pequeno vazamento da válvula mitral lhe aconchegava, ao gotejar lentamente por seus órgãos internos até chegar ao estômago, provocando um leve formigar, como o frio na barriga que já sentiu um dia.

Ana chegou em casa, seca. 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Domingo à tarde

Leio e passo um espresso
café forte livro bom
que desce em mim imerso
entre gosto, cheiro e som

eu sequer sabia que tinha
uma felina na caça
que toca roça ronrona
e nas pernas se entrelaça

mexo no pelo e lhe vejo
mesmo vermelho batom 
e acesso seu sabor aceso
morde meu dedo no tom

ela me mima e se aninha
no piso das minhas calças 
como me nina a gatinha
nina meus pés numa valsa