Publicação em destaque
O autor
Lucas de Castro Lisboa, que adotou o nome artístico de Castro Lisboa e a persona pública de "poeta sobre trilhos", é um poeta, edi...
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Trova da bola quadrada
sábado, 12 de setembro de 2026
Biblioteca Central
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
De Leminski para Cortázar
Cortázar, pugilista, diz que vence
ponto por ponto, até o gongo, o romance:
eis personagem, tema, cena, enredo,
acaso, clímax, fel, tensão e segredo.
Cortázar, pugilista, diz que a chance
do conto é o nocaute num só lance:
eis veloz e preciso, corte seco,
consequência e causa logo cedo.
Mas o soneto não diz que diz nada:
executa seu verso a verso e só,
inspira, pois respira e transpira.
Eis a palavra pura, ritmada:
levanta do tatame todo o pó —
o mestre e seu kata, no kiai, gira.
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
Acelerado 2
sábado, 22 de agosto de 2026
Solfejo
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Dois gatos, duas crianças e uma mãe
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Sumi-ê
quinta-feira, 9 de abril de 2026
sexta-feira, 27 de março de 2026
quarta-feira, 25 de março de 2026
terça-feira, 24 de março de 2026
quarta-feira, 18 de março de 2026
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Achados & Perdidos S.A.
— Ana —
sombrinha que jamais teve.
Objeto encontrado, protocolo assinado.
— Marina —
coração que não perdera ali.
Objeto encontrado, protocolo assinado.
p.s.1:
e enchia de frio a barriga de Marina.
p.s.2:
Ana chegou em casa seca.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
Achados & Perdidos S.A.
Ana, num momento de tempestade, busca um guarda-chuva orfão na sessão de achados e perdidos. Chega e, sem culpa ou pudor, diz: “perdi uma sombrinha preta de cabo marrom”,
E logra que, entre tantas combinações de plástico, madeira e metal, fosse esta a mais comum. Depois, assina o protocolo e se evade sob os olhos desinteressados do almoxarife, que sequer se dá ao trabalho de questionar.
Mas Marina, atormentada, vendo naufragar suas esperanças, queria um coração. Dirigiu-se ela ao setor em que se encontrava de tudo que, por esquecimento ou descarte, estava ali esperando pelo antigo dono: “sim, um coração, vermelho, pulsante, com dois ventrículos, uma veia cava, uma artéria aorta, quatro válvulas; a mitral está um pouco desgastada”.
O almoxarife calçou suas luvas cirúrgicas, remexeu entre pulmões, olhos, fígados e rins até achar a coleção de corações. Lá estavam eles; repassou a descrição de Marina — “válvula mitral” — e trouxe para ela dois exemplares.
Marina olhou, examinou e, tentando passar naturalidade, escolheu, escondendo o tremor de sua voz: “o da direita”.
O almoxarife, desinteressado, passa o protocolo; ela assina, já divagando consigo sobre se sua sorte não mudava, a partir de agora, ao fazer as coisas direito.
Em seu quarto, acoplou no peito o novo coração, tudo perfeito; até mesmo o pequeno vazamento da válvula mitral lhe aconchegava, ao gotejar lentamente por seus órgãos internos até chegar ao estômago, provocando um leve formigar, como o frio na barriga que já sentiu um dia.
Ana chegou em casa, seca.