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Lucas de Castro Lisboa, que adotou o nome artístico de Castro Lisboa e a persona pública de "poeta sobre trilhos", é um poeta, edi...

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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Narrativas dos Desertos

Passei o ano novo numa pequena cidade litorânea, bem na divisa do Paraná com Santa Catarina. Vi os fogos ao longe; estava no meio da enseada, as luzes saíam da ponta norte, sobre os rochedos que delimitavam aquela faixa de terra. Nesta noite, junto ao meu irmão, ouvi meu pai rememorando umas tantas histórias e anedotas de meu avô. Ele as contava empolgado, transmitia aquelas pequenas narrativas e me retornava a um tempo que eu mesmo nunca vivi.

Pela voz de meu pai, meu avô contava como um caminhão, que ficou atolado num dos raros aguaceiros da região, foi salvo por um sapo-boi gigante, que fez suas rodas subirem e descerem sob a força de seu coaxar. Contava o causo de assombração que repetia “eu caio” no meio de uma ruína que meu avô fez de abrigo durante suas andanças como mascate no início do século passado. Meu pai também narrava as aventuras e desventuras de uma ferrovia que ligava a Bahia a Minas Gerais pelas artérias do Vale do Jequitinhonha.

Se o pessimista Walter Benjamin estivesse aqui, talvez sorrisse ao ver que a comunicabilidade de seu narrador continua perene, mesmo após ele mesmo ter decretado o indizível do pós-guerra. Pois, mesmo após a tragédia do fim da ferrovia, a figura do narrador não se perdeu. Esta função sobreviveu ao passar das gerações que viveram neste deserto alimentar, nesta região que não tinha mais como escoar sua produção e nada mais recebia senão donativos para aplacar a fome durante os anos 70, 80 e 90, no eterno ciclo da indústria da seca do século XX.

Se a incomunicabilidade foi a norma europeia após a tragédia ocidental da Primeira Guerra, nós latino-americanos( que não somos exatamente ocidentais) sobrevivemos neste deserto porque havia narrativas, como a de minha avó, que transmitia seus saberes, redescobrindo práticas alimentares a despeito dos pacotes de macarrão e latas de conserva que chegavam nos caminhões da SUDENE. No meio do feijão que vinha plastificado e cheio de carunchos, cozinhavam abóbora e acrescentavam orapronobis para engrossar o caldo. A sopa rala de esperança foi engrossada pelos nossos narradores: pelo caminhoneiro que ousava enfrentar centenas de quilômetros em estrada de terra, pelas enfermeiras de longe e parteiras locais que se recusavam a desistir daquela gente… Há algo aqui que o realismo fantástico latino-americano contraria o vaticínio que a Operação Condor poderia conjecturar.

Para o espanto de quem acreditou no grande sonho americano, o deserto alimentar tornou-se a norma na nação mais poderosa do Ocidente, em que famílias inteiras estão à mercê dos enlatados, congelados e dos fast-foods, onde o capital se torna mais viçoso e também o espaço em que se percorrem milhas e milhas sem encontrar um pé de alface. Denomina-se deserto alimentar o fenômeno em que determinada localidade é incapaz de suprir, de maneira nutritiva, as necessidades biológicas de seus habitantes por meio de produtos frescos e não ultraprocessados pela indústria alimentícia. Algo similar ao processo da incomunicabilidade do pós-guerra, pois, apesar de factualmente os indivíduos se comunicarem dentro de uma práxis, não havia mais a transmissão da experiência: o que era dito não nutria, era uma fala sem o poder encantatório da narrativa.

Ao transpor essa lógica do deserto alimentar para a teoria crítica de matriz frankfurtiana, é possível diagnosticar a existência de um deserto cultural análogo, no qual toda a produção simbólica disponível é aquela que sucumbiu ao processo de massificação da indústria cultural, conforme defendido por Adorno, Marcuse e Horkheimer. No vale do jequitinhonha o processo de assimilação pela indústria cultural se explicita pela substituição das sanfonas pelos teclados e baterias eletrônicas que expulsaram o forró dos clubes e bailes dando lugar ao tecnobrega. 

Nesse cenário, o ambiente social é inundado por mercadorias culturais que, tal qual o alimento ultraprocessado, são desenhadas para a saciedade imediata e a fácil digestão, mas carecem de valor nutricional para o intelecto e para a sensibilidade. Enquanto o alimento fresco exige preparo e a arte autêntica (erudita ou popular) exige o esforço da interpretação, a indústria cultural entrega o produto previamente mastigado, substituindo a experiência estética pela gratificação instantânea. 

A formação de um sanfoneiro exige a dedicação de anos para coordenar os movimentos dos braços, mãos e dedos para ditar o ritmo do sopro controlado pelo vigor dos braços e o timbre dado pela força impressa em cada tecla de cada lado do instrumento. Já nos teclados eletrônicos, os timbres, os ritmos e batidas estão pré-programados na memória digital daquele instrumento, tornando a formação deste músico muito mais simples do que a do sanfoneiro. É portanto uma questão econômica que decreta o ostracismo do sanfoneiro frente ao tocador de tecnobrega. 

No entanto, emerge aqui uma inversão sociológica fundamental que diferencia o deserto alimentar do cultural. Se o deserto nutricional aflige majoritariamente as camadas mais desvalidas da sociedade, dado que o processado e o ultraprocessado são economicamente mais acessíveis que o alimento fresco, no deserto cultural as classes médias também sofrem de sua ínfima variedade e homogeneidade. Há na fria crueldade das ações da bolsa e nos algoritmos de consumo uma predileção por espalhar-se por todos os meandros e espaços que puder encontrar e conforme avança o poder de compra, avança também o que se pode vender pois para um homem com fome só se pode vender comida.

É justamente com a melhoria das condições de renda e acesso que permite a indústria cultural de estender-se pelo vale do jequitinhonha, pois se a ferrovia desativada nos anos 60 isolou a região, os programas de transferência de renda e o asfaltamento das estradas da região nas primeiras décadas do século XXI trouxeram a região novamente para o mapa econômico do país, não mais como uma região destinatária apenas de produtos de primeira necessidade, mas também uma região consumidora de produtos de diversas naturezas. Inclusive os culturais que tomaram o espaço daqueles que se mantiveram vivos por lá por múltiplas causas, dentre elas o próprio isolamento.

Seja no recém integrado Vale do Jequitinhonha ou nas grandes cidades, esta classe média é o alvo preferencial e o consumidor cativo das engrenagens midiáticas e dos algoritmos de distribuição em massa. Confinada em bolhas de consumo que oferecem a ilusão de escolha, ela se vê cercada por uma dieta de entretenimento padronizada, em que o que parece ser “novo” é apenas uma reembalagem do mesmo. É o que Adorno define como pseudo-individuação: a oferta de produtos que parecem distintos para que o consumidor sinta que possui um gosto pessoal quando, na verdade, todos estão consumindo a mesma fórmula “ultraprocessada” pela lógica do lucro.

Não faço aqui uma nova marcha contra a guitarra elétrica, o papel do teclado na erradicação da sanfona não toma esse vilão ou o sal jogado em terra fértil, dentro das condições econômicas presentes o novo instrumental é reapropriado em um processo antropofágico que bebe nas fontes rítmicas da tradição, incorporando os novos elementos sonoros vindos da zona franca de Manaus. Dentro de cada teclado podemos enxergar uma sanfona eletrificada e dentro de cada tocador um sanfoneiro moderno que mistura sua tradição com as novas tecnologias, manipulando algoritmos para se fazer ser ouvido tanto nas rádios interioranas que sobrevivem quanto nos streamings modernos que escapam das barreiras geográficas dos vales, montanhas, rios e fronteiras.

A precariedade das periferias atua como um grande liquidificador contra a padronização total. Longe dos tentáculos mais imediatos das tramas comerciais e da higienização estética das grandes curadorias, a periferia mantém uma pulsão do novo e uma vitalidade orgânica. A precariedade destrói e mata muitas iniciativas da periferia de se estabelecer culturalmente. Ali, a cultura que sobrevive ao crivo da escassez não surge como produto da indústria cultural, nasce como necessidade de existência e expressão comunitária, resultando em produções “frescas” que ainda não foram capturadas e neutralizadas pelo sistema. 

Enquanto a classe média habita um deserto de repetições e fórmulas prontas, a periferia produz o que há de mais nutritivo e autêntico na cultura popular, justamente por estar situada em uma zona de atrito e resistência que a indústria cultural ainda não conseguiu converter inteiramente em caloria vazia. É claro que há flores no asfalto, há rebeliões contra os produtos e há mais que subprodutos do rock na selva de pedra do que gostariam os donos dos conglomerados de mídia. Porém, no mais das vezes, o samba surge no morro e cabe aos condomínios apenas reembalar tudo em bossa nova para satisfazer ao paladar faminto da indústria. Assim, o deserto cultural se revela não como uma ausência de consumo, e sim uma hipertrofia do consumo irrefletido, aprisionando aqueles que possuem maior acesso financeiro em uma carência subjetiva profunda. 

Convém anotar, contudo, que nem toda construção cultural nascida na periferia está imune aos tentáculos da indústria cultural. Muitas de suas produções também passam a obedecer às fórmulas algorítmicas de engajamento e visibilidade. O mesmo se pode dizer daquilo que é processado, consumido e até mesmo produzido pela classe média: tanto na arte erudita quanto na popular, há obras que incorrem na ilusão de escapar à lógica da indústria cultural, assim como há aquelas que, de modo consciente ou estratégico, dela se valem para sua própria fruição ou para sua conversão em commodity. 

Dialeticamente, nenhuma produção simbólica, seja ela oriunda das periferias ou das classes médias, se encontra fora do campo de forças da indústria cultural. Não há exterioridade pura ao sistema: mesmo as formas que emergem como negação ou resistência tendem a ser rapidamente mediadas, reabsorvidas e reconfiguradas segundo as exigências de circulação, visibilidade e lucro. Do mesmo modo, produções geradas no interior da classe média, tanto no âmbito da arte erudita quanto da popular, oscilam entre a ilusão de autonomia estética e a adesão consciente à lógica mercantil, convertendo a obra em mercadoria e a experiência em consumo. O que se apresenta, portanto, não é uma oposição entre autenticidade e corrupção, é um campo de tensões no qual cada forma cultural carrega, simultaneamente, momentos de negatividade e de integração, revelando o caráter contraditório da cultura sob o capitalismo tardio.

Os próprios fogos que vejo desta praia são um produto embalado e barateado que palidamente lembra as artes pirotécnicas que criavam luz, cores, formas e sons numa orquestra mágica que encantou Marco Polo e que chegou ao ocidente como uma confusão de barulhos e cores que se apresenta agora na minha frente. E o deserto é justamente esse lugar onde a multiplicidade dá lugar a monotonia, em que a variedade se reduz ao mínimo do mínimo. Não há porquê narrar se só o barulho e as cores bastam para vender.

O deserto cultural interdita a transmissão da experiência: não há narrador possível em meio à influência dos influencers, construída segundo algoritmos e alicerçada na lógica do consumo. Entretanto, pela mesma lógica dialética que desertifica a localidade de alimentos e de cultura, também se limita o alcance dos media até as mais distantes periferias, que se tornam, assim, o berço de novos narradores, de novas aldeias e de novos mares, capazes de novamente comunicar e transmitir a experiência que nos torna humanos.