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Poeta e apenas poeta

Já me olharam espantados quando digo que sou poeta e só poeta. Que não canto, nem danço, nem atuo, nem pinto, nem bordo, que "só" ...

sábado, 30 de novembro de 2019

Djafu

Teus milicos se metem as mãos nos pés
Mas pra fora eu te incendeio
Teu votar não me diz exato o que tu queres
Mesmo assim eu te incendeio

Te venderia a qualquer preço
Porque sou ignorante e mereço
te incendiaria tal Caetano
a Leonardo di Caprio

é um milagre
Tudo que Deus criou foi via lei rouanet
Fez a Ancine, fez o Niemeyer
Sem pensar em nada, fez a familicia
e deu no que deu


quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Das vaidades post mortem

Podem mijar no meu túmulo
quebrar o meu epitáfio
até foder com meu cadáver...

Mas, por obséquio, jamais
coloquem os seus poemas
piegas na minha boca!

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Dos anais contemporâneos da arte moderna

Estávamos saindo de casa cedo e  só fui me atentar quando vi a van dos correios estacionada na porta. E me lembrei da cartinha que tinha encomenda me esperando lá nos correios e eu nem me lembrava do que era. Foi uma aventura buscar. E quando conseguimos pegar e abrir os olhinhos dela brilharam tanto!  Eu me fiz de desentendido quando cheguei do trabalho e o meu banho estava preparado na banheira, me fiz de desentendido quando ela quis buscar não sei o que lá embaixo. 

Foi delicioso torturá-la como se não soubesse da ansiedade dela. Só depois de tomarmos um vinho. Pois é, recomendações médicas. Já não posso mais beber cerveja como bebia, nem destilado e muito menos do outro lado. 

Ao menos as práticas sodomitas contínuo liberado. O que seria de mim sem meus rabinhos servis a disposição? Eu durmo tarde pra caramba. Tô sem um pingo de sono. Amanhã acordo com ela me trazendo o café e levanto pra levá-la na biblioteca pra ela estudar pro seu projeto de pesquisa e depois vou pro trabalho fazer minhas pesquisas pra curadoria. 

Ver ela dormindo deitada no seu colo segurando seu pau e roncando de levinho  toda arrombada,  com o bumbum vermelho e ardido depois de ser usada, abusada e orgasmada de mil maneiras diferentes é um prazer único. fico aqui só olhando pra ela e admirando. 

Tá coberta, tá dormindo tão bonitinho com a mão no meu pau, ainda como um nenê, de vez em quando faço um cafuné.Mas a cabeça vai voltar pra noite onde ela abriu toda feliz os embrulhos dos arreios novinhos que chegaram, os arreios de cintura, coxas, de dorso, seios.. Foi um pedido dela, hoje era o último dia de buscar nos correios e eu tinha me esquecido.

Ela toda amarrada, apertada, empinada, arreada para mim, irresistível com os seios empinados, deliciosos, um convite malicioso que eu eu não poderia negar jamais, me levantei como quem vai avaliar melhor o presente que deu. e cheguei mais perto e apertei as fivelas, uma a uma. ajustando onde estava frouxo, deixando justo, 

Colocando suas carnes já não tão mais magrinhas como quando a conheci na justa medida dos arreios, sim conforme lhe apresentei os prazeres da gula e da bebedeira alguns quilogramas a mais de pura delícia apareceram em seu delicioso corpo. Só para meu prazer. Deslizei minhas mãos pelo seu corpo. passeei pelos seus cabelos, seios, lábios, sexo.  Tudo delicioso. Peguei no baú a varinha mágica, e as fitas expansíveis de esportistas e as posicionei bem colocadas para segurar bem em cima de seu sexo de modo a lhe causar delírios. 

Os quadros novos nas paredes eram uma boa inspiração, me sentia um mecenas de arte contemporâneo, um alguém cheio de virtude e como tal podia e devia brindar e comemorar da maneiras mais dionisíacas nessa noite pois a arte não vive só de momentos apolíneos. E na minha parede de mapas e bordados a prendi as mãos nas coleiras afixadas no tapume de madeira. 

Lhe dei com bastante  carinho cutisanol e bepantol em seu orifício anal enquanto massageava calmamente suas nádegas com um gel dotado de vitamina E. Seu rabinho brilhava no espelho e a varinha mágica fazia seu corpo todo tremer e já era possível ver seu líquido de prazer escorrer na altura dos joelhos.  E para completar o conjunto a pluguei com uma joia de minha cor favorita, o vermelho. 

Retirei um chicote, uma focinheira, uma sineta e instalei a focinheira e a sineta. O jogo era mais divertido assim. Não se tratava apenas da dor pura e simples. Havia um espelho de frente a nós e todos os nossos movimentos eram vistos e revistos, cada gesto, cada segundo nosso era  contado e recontado, ajustado e medido. O menor barulho da sineta faria a punição do chicote ser pior.  E então comecei, o chicote bem de leve, a tensão de não fazer barulho a fazia imóvel, estática, era a pior tortura. não poder esboçar reação. 

Nenhuma reação a varinha mágica, nenhuma reação aos tapas, as carícias, as lambidas, toques, invasões, usos e abusos, e os vermelhos, vergões sofreguidões iam se tornando cada hora mais intensos e ousados.  Até que me dei por satisfeito, ambas as nádegas já estavam da cor que eu queriam de um vermelho bonito, um vermelho lindo. Um vermelho carmim e reconfortante ao toque. 

Retirei com carinho o plug  e meu falo o substituiu com toda fluidez, um suspiro marcou o contato de minha virilha com suas nádegas róseo-rubras e minha penetração foi intensa como ditava a vontade narcísica do espelho que estava ali em frente. Ela amarrada na parede de sisal não cabia outra alternativa senão penetrá-la mais e mais enquanto o estímulo vaginal incessante vindo da varinha mágica lhe mantinha no transe constante. 

A penetração passou ela fases de seu corpo todo arrepiar, de seu corpo todo arquear, de seus arfares, de seu pedido delirante para parar, de sua respiração pesada, de seu tremor delirante, de seu implorar, o tremor intenso e absoluto, de sentir meu falo inteiro sendo devorado durante o orgasmo que apertava e soltava enquanto suas pernas fraquejavam e o corpo tremia  e voltava em um inconfundível deleite, até meu próprio gozo, seguido de uma pequena tortura após.  onde pude deliciar-me  com meu brinquedinho semi desfalecido em seu calvário,  presa pelas mãos sustentada pela minha pica e mãos. a varinha em seu sexo já dormente. E eu calmamente ainda lhe fodendo o rabo como se nada tivesse acontecido, por pura maldade. 

Para só depois soltar mãos, braços, antebraços e tudo mais da parede  dos bordados , coleiras mapas e sisal. a levei pra cama, onde tiramos seus arreios, e seu rosto de menina satisfeita e feliz contrastava com sua exaustão e desejo de quero mais, deitou-se aninhada à minha perna esquerda, querendo mais, mas adormeceu ali, segurando meu pau, como um bebê com seu brinquedo favorito.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Com quantos esqueletos se faz um armário?

"Comunista é o pseudônimo que os
conservadores e saudosistas do fascismo
inventaram para designar todo sujeito
que luta por justiça social."
Érico Veríssimo

Uma decisão do STF, muito teatro, muitas idas e vindas. Se era cláusula pétrea foi só pra tirar o Lula da eleição? Aécio se arrepende de todo o movimento parar tirar a Dilma do poder? Deixar ela sangrando até o fim de 2018 para sair de lá junto com o PT com a (im)popularidade do Temer não era uma opção? Seria ele o presidente hoje se o pais não tivesse pegado fogo com Cunha, Moro e cia? 

Todas essas questões eram tão importantes num passado não tão distante, agora me parecem trivialidades, quase jogo de cena política. Novela das seis que se assiste em família antes do jornal local.  O que me assombra agora é: Haverá uma guerra entre Lula e Bolsonaro? Entre Esquerda e Direita? Entre Civilização e Barbárie? Será política-eleitoral ou as ruas serão tomadas? Se serão tomadas será por flores ou por tanques?

Se por um lado sinto saudades de um tempo onde eu conseguia brincar com meu adversário político, que conseguia enxergar em Serras, Neves e Alckmins, indivíduos que apesar de calhordas alguma forma de civilização ainda existia ali dentro e que se perdesse uma eleição para eles os direitos e garantias individuais estariam "assegurados"  

Eu vejo que tudo isso não passa de uma tremenda ilusão. Esses direitos, essas garantias nunca estiveram assegurados no Brasil, vivemos sob uma guerra surda, muda e abscondida de nós e por nós mesmos com uma boa ajuda da Impressa e da pior parte classe política que comemora toda vez que alguém diz que todos os políticos são iguais. 

Precisamos dessa guerra há décadas. Tivemos um arremedo de anistia que varreu pra debaixo do tapete todas as tensões sociais do país. E o preto, pobre, bicha, favelado, nordestino, etc continuou sendo preterido, morto, perseguido. 

Passamos de 1989 a 2002 sendo governados pelos mesmos políticos que governavam na ditadura mas agora com um verniz de neutralidade, de tecnicidade, e até de viés esquerdista no discurso. 

Finalmente o país está se passando a limpo. O fascismo que matou os meninos da candelária em 1993 nunca deixou de existir, apenas esteve escondido, dissimulado, matando, estuprando, destruindo sonhos e vidas em igual medida.  

Com a ascensão do PT ao governo os mínimos e tímidos progressos que tivemos, em parte por culpa do próprio PT e em parte pelos avanços da sociedade onde os setores marginalizados começaram a se organizar e a fazer valer seu lugar. 

O Fascismo ficou incomodado demais, raivoso demais com a petulância da bicha que não aceitava ficar no armário e queria casar, da  arrogância da filha do porteiro que agora era Doutora, com o descaramento de ver nordestino não no pau-de-arara mas no aeroporto. Os ossos começaram a chacoalhar no armário mais do que deviam.

O fascismo que "só queria dar um susto no mendigo" e acabou matando o Índio Galdino em 1997 sempre esteve ai na surdina, na espreita matando calado enquanto fazíamos vistas grossas. Mas quanto mais gente falava alto como a irmã Dorothy fez até ser calada em 2005 ou Chico Mendes em 1988 menos esse fascismo consegue ficar escondido. 

Mais esse fascismo sonha com os áureos tempos do CCC, não se contentam com o que fizeram em Carajás (1996) ou no Carandiru (1992) é muito pouco sangue para os padrões que estão acostumados quando tinham todos os porões do DOPS para seu bel Prazer. O que são mais esses ossos no armário de quem já colocou um cemitério inteiro?

Hoje precisam engavetar processos usando promotores de (in)justiça como no caso do Amarildo.  E eles não suportam esses entraves do estado democrático de direito. A décima demão de verniz que o DEM recebeu para esconder que já foi PFL/PDS/ARENA/UDN já não estava fazendo bem  pra pele dos fascistas. 

O PSL deu uma lufada de ar fresco, tirou do armário toda essa corja mais abjeta que sempre esteve ali na surdina,  sustentando e sustentados por milicianos em cada esquina.  Deram a cara, vieram dizer um basta para essa balbúrdia, para esse monte de gente que está subvertendo a ordem natural das coisas. 

Sim, subversivos, essa palavra consta no treinamento da PM mineira e foi com ela que o carro de som passou ameaçando os manifestantes no fim de um dia de protesto em 2013 sob o governo Demo-tucano de Minas Gerais.

Eles não saíram da guerra fria, do embate contra o monstro do comunismo. Não adianta botar panos quentes, contemporizar, chegar num acordo, num denominador comum. O Embate é mais do que necessário, o que esse fascismo quer (e sempre quis) é completamente inaceitável e inegociável. 

Agora que eles finalmente dizem as claras ao que vieram ao menos podemos combatê-los diretamente. Lembro-me bem das eleições de 2002, os programas de governo, as propagandas políticas. Um estrangeiro que viesse de fora teria certeza que só concorriam candidatos de esquerda.  O mesmo se repetiu nas eleições subsequentes. 

A despeito do sucesso eleitoral executivo do PT nesse período a falta de clareza da direita com seu discurso confundia e enganava o eleitorado. Mesmo elegendo um presidente à esquerda continuamos elegendo um balaio de gatos pro congresso. Congressistas de 30, 40 anos de casa. Que estavam ali desde sempre fascistando e roubando por lá. Quantos Hildebrandos Pascoais (1999) não tiveram suas motosserras descobertas? É surpresa para alguém que esse Congressista do DEM/PFL/PDS/ARENA/UDN seja um ex-coronel da PM?

Façamos as contas Hildebrando Nasceu em 1952, aos vinte poucos anos estava na PM no auge da carnificina. Onde ele aprendeu a manejar tão habilmente uma motosserra? Acreditamos mesmo que seus padrinhos políticos não tinham pleno conhecimento de suas atividades? Não seriam justamente por essas habilidades que eles se irmanavam no mesmo partido, na mesma famigerada Frente Liberal? Será que nas festas de confraternização do partido iam contemplar um o armário de ossos do outro em suas respectivas e humildes moradas com  cameras e segurança armada?

Hoje esse digníssimo senhor que esquartejava pessoas vivas com uma motosserra encontra-se em prisão domiciliar mesmo tendo violado os termos dessa prisão uma vez. Um santo homem que desde a década de 70 só traz o que há de melhor para o cidadão de Bem desse país.

Hidelbrando é um caso midiático de alguém que foi pego em flagrante após findo o regime, um alguém que caso não fosse seria digno de todos os elogios que já recebeu Ustra, inclusive na tribuna do congresso.

Se a cadela do fascismo, em todo mundo, está sempre no cio, no Brasil,  parece que ela não para de dar numerosas ninhadas. Mesmo com a míngua do DEM/PFL/PDS/ARENA/UDN sua mais nobre raça já está negociando a cruza com o próprio PSL que por sua vez já pensa numa outra cruza com o outro rebento do ARENA o velho PP.  Todos irmanados na saudade dos tempos de outrora onde existia mais respeito. Seja lá o que isso signifique, pois com certeza esse respeito não é para mim ou pra quem não se encaixa no padrão de Bem e de Bens.

Venhamos e convenhamos, não se negocia com milicos, fascistas e milicianos. Eles não estão aqui para negociar, para entrar em acordos, eles só querem impor sua doutrina, sua ideologia e sua forma de enxergar o mundo. Temos que tirar de vez esses ossos do armário, enterrá-los todos após um cortejo fúnebre. São muitos mortos na conta dessa gente.  Tê-los assim desnudados, com a cara a mostra é a oportunidade perfeita para o enfrentamento, em todas as frentes possíveis da praga fascista que está entranhada em nossa sociedade.  
"Se eu dou comida aos pobres,
eles me chamam de santo.
Se eu pergunto porque os pobres não têm
comida, eles me chamam de comunista."
D. Hélder Câmara

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Nunca mais azul

Quente, é verão:
noventa questões
e uma redação;
Ela não me nota

passa sem me ver,
passa se achando:
-a última Caneta
Preta do Enem-

eu nem ligo mais
pois igual a Ela

já perdi a tampa
de mais de cem

levanto a mão banheiro
manchei meu batom

Talhado por Talião

Meço o quanto
eu amo algo
(ou mesmo alguém)

justo pelo ódio
que esse algo
(ou esse alguém)

causa em quem
eu mais odeio
(ou mais amo)

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

QUESTÃO DE LÓGICA

Um pato é bigamo
pois tem duas patas
Dois patos somados
tem quatro patas
Um cavalo também
tem quatro patas
Logo dois patos
formam um cavalo.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

O SALVAMENTO DO GATO NA PONTE DO SABER:

Campis Universitários, Variação Linguística e outras digressões

Como não ter um gato favorito? Quando eu adotei Sodoma e Gomorra na virada do ano de 2018 para 2019 jamais cogitava ter um terceiro gato.

Certa  noite de domingo,  quando fui deixar o  Rodolfo no alojamento da UFRJ na ilha do fundão depois da Feira Literárias de Duque de Caxias na Biblioteca Leonel Brizola. Não posso deixar de comentar que apesar da biblioteca ter os traços concretos do imorrível Niemayer ela pulsava vivamente a Literatura e nos brindou com um fim de semana deveras agradável. Mas voltando o assunto encantado com o evento eu desviei um pouco da minha rota habitual e fui levar o Rodolfo para seu quarto lá no alojamento, mesmo alojamento onde eu mesmo já tinha morado meia década antes, mas isto é outra história.

Deixei o Rodolfo são e salvo e sem ter que perder duas horas no caos dos ônibus Fluminenses, agradeci pelo empenho na feira e fui em direção a Ponte do Saber que a moça do Google tão gentilmente me instruía a ir. Mesmo amando variação linguística. Eu sempre me esqueço de trocar por uma voz masculina me sinto mal em xingar ela quando erro o caminho, se fosse ele seria mais confortável de xingar. Melhor ainda é quando me lembro de colocar em Galego ou em Português de Portugal.

Continua, é claro, perfeitamente inteligível, no caso dos gajo xingo com mais prazer e pelo galego nutro uma estranha xenofilia de um povo que vive ali ao norte de Portugal com um idioma virtualmente idêntico mas sob os domínios da coroa espanhola. Ouvi-lo me guiar pelas ruas brasileiras é uma experiência que me aproxima de uma possibilidade histórica irrealisável.

Largando a História, e voltando a estória, lá ia eu pra Ponte do Saber que por ironia simbólica era uma via de mão única, é apenas uma saída da ilha do fundão. Lugar onde os milicos da ditadura isolaram todos os cursos universitários da UFRJ que conseguiram. Só ficaram acessíveis à população e longe do seu controle explícito aqueles cursos mais fortes como o Direito ou mais organizados politicamente. A ilha do fundão é ao lado da base aérea do Galeão, bem aos olhos vigilantes dos militares.

O mesmo aconteceu com a Ufmg cujo campos fora planejado para ser no coração da cidade. Acessível a toda população e os milicos mandaram pra bem longe ao lado vejam só que coincidência! De uma base militar do exército! E o que foi feito do terreno onde era para ser a universidade? Virou um bairro de mansões conhecido como Cidade Jardim.

Voltando a pretensiosa ponte do saber de onde o conhecimento só sai e nunca retorna. Uma mancha preta e magricela impetuosa parou em frente aos meus faróis num dia que eu estava imbuído de poesia.

Parei de pronto, desci do carro, desse meu carro que parece de funerária de tão grande mas que só carrega caixa de poesia para ser vestida, bebida, encadernada, as vezes lida, repousada a cabeça e constantemente recriada.

Miava muito, mas não fugiu. Pensei comigo o que eu iria fazer, parei pois ia devagar pois já não tinha pressa e já estava cansado de saber onde como eu ia chegar no meu destino.

Eu já não sabia que tipo de conhecimento poderia passar desembestado pela ponte do saber e atropelar aquele  bichano  esperto. Há quem ache que precise passar rápido pelos saberes dessa e de outras vidas.
Pelo sim pelo não coloquei aquele miador no meu carro, não tina caixa não tinha onde botar, porém esperava que como bom gato fosse minimamente desconfiado e se aquietasse em algum canto ou fosse explorar cada recanto daquela banheira de quatro rodas.

Coloquei o sujeito dentro do carro, no porta malas, eu não estava preparado para aquilo, pensei em dirigir devagar e só que tudo iria ficar bem, o miado constante eu poderia abstrair com música alta mas o impetuoso, não ficou nem cinco minutos lá, saltou a barreira dos bancos de 10 vezes o tamanho dele e o meu colo procurou. Tranquilo, estou de cinto vou dirigir mais devagar ainda. Fazendo as curvas da ponte do saber o diabo do menino  batia aquele nada de cabeça  nas minhas mãos no volante.

Eu, marinheiro de primeiríssima viagem em resgate de gatos e semi virgem em tutoria de felinos em geral. Não entendia nada.
Sério, no início do ano eu preferia que me dessem uma neném humano de um mês com a fralda de diarréia que um filhote gato recém nascido.  Eu Sabia lidar muito melhor com humanos. Acho que hoje consigo cuidar dos dois com tranquilidade. Já sei amolecer a ração com água morna pro bebê e preparar leite materno congelado pro gatinho.

Mas voltando. Eu achei que ele queria nos matar, que queria sair do carro, que queria voltar,  que sei lá. Parei o carro.  Abri o porta malas e coloquei ele de volta num vão que tem no carro onde teoricamente ficaria o estepe mas no meu modelo o estepe fica do lado de fora( muito útil quando você vai viajar e seu carro está lotado de caixas e caixas de artigos Literários e só de pensar em tirar o estepe de lá você pensa em chamar o reboque ou em suicídio) nesse vão tem uma cobertura toda vedada de velcro, dali ele não vai escapar! Eu fiquei todo orgulhoso da minha inteligência e voltei a dirigir.

Não andei dois quilômetros, e ele desceu pelo meu cangote, cravando a patinhas com aquelas unhas minúsculas no meu peito e dessa vez não ficava quieto,  no meu colo, na minha perna, na marcha, tentei dirigir com uma mão só segurando ele  no banco do passageiro,  ele achou que era lutinha e se empenhou em derrotar minha mão.

Tive a brilhante ideia de esvaziar o porta luvas, tirei documento, manual, pacote de camisinha, par de óculos noturnos, uns metros de corda,uns livretos de poesia minha uns exemplares do meu livro, uns panfletos aleatórios, umas notas de dinheiro que eu nem sabia que estavam ali. 

Isso tudo com ele fazendo a festa porque era uma mão no volante, outra fazendo isso, daí não sobrava mão. Eu só praguejava e me perguntava porque eu estava fazendo aquilo.
Esvaziado o porta luvas, peguei aquele merdinha miador e com todo carinho taquei ele lá dentro.

Não sei se o porta luvas atuou como uma concha acústica, nem se era possível uma garganta e um pulmão tão pequeninos fazerem tanto barulho.

O som do miado ficou insuportável. E o volume do punk rock dos testiculos de Mary não conseguiam abafar. Abri a janela na auto estrada, não ajudou muito e eu ainda fiquei com medo de alguém ouvir e achar que eu estava matando.

Para meu alívio avistei a feira de São Cristóvão, dei seta pra direita, desci da linha vermelha liberei ele do seu cativeiro, passei em frente do melhor baião de dois do Rio de janeiro com ele trançando de um banco pro outro miando ritmadamente e eu indo calmante a 30km/h numa pilha de nervos.

Estávamos perto. Mais dez minutos.  De novo ele dava cabeçadas na minha mão no volante e como um Eureka eu entendi que ele queria carinho. E comecei a usar uma das mãos para fazer carinho, ele durante um tempo tentou  puxar a outra também, mas depois se contentou com uma só.

Dirigia exausto pelas ruas finais já era tarde, bem tarde devo ter gastado o triplo do tempo que gastaria do fundão até minha casa.  Estava contente, não cagou, não mijou, não me mordeu, uma vitória completa.

Estacionei o carro, deixei ele lá dentro, no segundo que eu larguei abriu o miador. Total e absoluto.

Abri o portão de casa, coloquei Sodoma e Gomorra num quartinho, eram todos do mesmo tamanho mas não convinha mais estresse nesse dia.

Peguei um pote azul e outro vermelho enchi de água e ração. A fome do pequeno de pelo preto mas peito, cara e patas brancas era tanta que eu tinha que segurar o porque senão o pote saia arrastando a cada bocada que ele dava.

E ele dava duas bocadas, olhava pra mim miava e voltava a comer, mais duas bocadas e um miado. Até ficar roliço e o pote vazio. Nesse dia dormiu comigo desfiando minha barba deitado em meu peito. E até hoje, sempre que fico doente, passo mal ou estou triste é o primeiro a vir a se deitar comigo.

Quando levei à veterinária no dia seguinte ela se enganou e cravou que era fêmea, e também prescreveu um monte de remédio que dei com muito zelo. Cuidei melhor dele do que tomo os meus próprios remédios. Se eu cuidasse de mim como cuido dele mina vida seria outra! Meu tdah, minha depressão e ansiedade não seriam bichos de estimação tão ruins de se conviver, poderiam ser  se não uns amores como este preto e branco ao menos pamonhas como Gomorra ou indiferentes como Sodoma.

Eu não disse seu nome ainda? Que distração a minha! Seu nome é Admá. Não Ademar como já quiseram insinuar. E  não, ele não parece um senhor de meia idade, meio calvo, usando uma camisa velha de um candidato a vereador pelo PFL do interior. Nem Admar como escreveram no cartão da Clínica do veterinário. Tudo que eu não sofro com meu nome esse daqui passa. Ao menos ele nunca vai ter na sala dele 8 Admá, nem vai fazer Enem com uma sala só de Admá.

Admá  é uma das cidades do vale do Sidim, o mesmo vale onde ficava as cidades de Sodoma e Gomorra. Sim, das minhas tantas ironias os gatos vistos como deuses cá em casa recebem o nome de cidades vítimas da ira Divina... Mas aqui sou eu a protegê-los e subverter essas e  outras lógicas entretanto por ironia da ironia Admá que escapou da ira divina e também o verdadeiro xodó da casa, tanto que tem até apelido que só os íntimos da casa conhecem.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Em causa própria

As dívidas dos seus lábios
Já incidem juros e mora;
protestadas em cartório.
Pague logo sem demora

Porque o risco já vigora
de se decretar o arresto
de seu corpo, co'a penhora
dos seus lábios em protesto!

Serei porém o mais profícuo
nas lotas dessa almoeda
nos lances e no  arremate

Sei, sou injusto e iníquo
mas eu quero que suceda
de para mim encarpar-te

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Omilia da caridade

Tá confundido as coisas irmão
Cristão é que reparte o pão
Comuna faz revolução
e toma os meios de produção

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

terça-feira, 17 de setembro de 2019

"Eu não sabia que você também sangrava"

Refletindo na noite e sonhando de dia. Debati comigo muito. Em como meus relacionamentos sempre são com pessoas neuro atípicas tão extremas quanto eu.  Dois ou mais indivíduos sem nenhuma estrutura psíquica adequada, se relacionando só pode ter um fim trágico. E foi o que aconteceu a minha vida toda. 

Eu sem estrutura nenhuma lidando com pessoas onde muitas vezes eu era visto com a fonte estruturadora. Daí eu, obviamente, não dava conta de sustentar isso tudo e desabava. E frequentemente comigo como culpado, afinal eu era a parte estruturante da relação.  

Cai nesse ciclo vicioso inúmeras vezes. Sem nunca conseguir sair deles. E quando eu saia de maneira intempestiva causava muita dor no processo.
Jamais deveria ter me relacionado com pessoas tão problemáticas quanto eu e muito menos assumido tantas responsabilidades. Fiz esse tipo de escolha de maneira inconscientemente durante boa parte da minha vida. 

Procurando na fragilidade alheia um conforto para a minha própria fragilidade. Mas sempre me fiz de forte e inabalável. Relendo algumas coisas vi uma frase dita por uma garota. "Me desculpa fazer você sofrer mas eu não sabia que você também sangrava." Me faço e sou visto como muito forte, como inabalável. Daí quando essa máscara cai acreditam que tudo que eu fiz em desespero, em descontrole foi feito de maneira pensada e calculada. Porquê eu mesmo me mostrei assim, numa ânsia louca de fazer o bem e ser porto seguro. Acabo sonhando em tornar o conto de fadas de Florbela uma realidade:

"Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o ungüento
Com que sarei a minha própria dor."

Mas eu sempre falho, falho sempre pois eu não sou forte como me fiz parecer. Não sou o ser que personifiquei. Buscando construir o melhor, achando que construindo o outro eu estaria fazendo algo de bom. 

"Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento..."

Eu só crio ilusões que um dia caem por terra pois na verdade sou completamente instável e perigoso. Um indivíduo que deveria estar procurando se tratar e não cuidar do outro, melhorar o outro.

"Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita."

Sou um automato com partes essenciais faltando tentando construir um outro perfeito para que então esse outro possa me reconstruir.

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A princesa de conto: "Era uma vez..."

Pois eu mesmo tenho medo de me reconstruir, sei muito bem o que o outro precisa, quer e pode ser. Mas sou tão míope sobre o meu próprio ser! Tão instável quanto ao que sou, incapaz de controlar e dosar meus impulsos. Desestruturado frente ao primeiro medo, a primeira recusa, ao primeiro olhar de censura. 

No último confronto, na ultima derrota olhei com desespero implorando para que eu não fosse o vilão novamente. Mas eu fui. Por mais desesperado que eu tivesse lutado contra mim para não ser. 

Não fui capaz de ir embora antes que isso acontecesse. Pois me sentia responsável, me sentia como que obrigado a permanecer onde já não cabia mais permanência. Pois já não havia moinhos de vento para enfrentar. Não havia outros bichos papões debaixo da cama. Eu não era útil ali e mesmo ela implorando para eu ficar deveria ter ido. Pois ali nunca tinha sido meu lugar. Só estive ali pela segurança, pelo que eu poderia construir. 

Hoje estou aprendendo a ir embora onde terei que ser por dois, estou indo embora de onde sou o arrimo que se sustenta no ar. Não vou mais me propor a ser o que não sou. A sustentar o peso que não me cabe e nem eu suporto. É mais cômodo se ver como super homem do que como humano, falho e inadequado.

Quadrilha México-Soviética

Diego amava Rivera  que amava Frida
que amava Chavela que amava Kahlo
que amava Trotsky que amava Sheridan
que amava Leon que amava Sedova
que era revolucionária também
Rivera foi pintar nos Estados Unidos, Sheridan foi exilada,
Frida sofreu um desastre, Kahlo casou-se com Diego,
foi amante de Leon e Chavela, que tornou-se alcoolatra,
Sedova casou com Trotsky que foi morto por Mercader
que ainda não tinha entrado pra História.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

DENTROFORA


Se vem 
de fora
Vende 
dentro?

Se vende 
fora
Vem de 
dentro?

Se vem 
de dentro
Vende 
fora?

Se vende 
dentro
Vem de 
fora?

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Mas me ama?

O namoro enamorou
Vem cá amor, vem cá meu bem
Nós somos e eu só não sou
Acabou mas inda tem