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Poeta e apenas poeta

Já me olharam espantados quando digo que sou poeta e só poeta. Que não canto, nem danço, nem atuo, nem pinto, nem bordo, que "só" ...

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Respeitável Público

a trupe mambembe
faz da rua seu melhor palco
e do chapéu seu ventre

Haicai nº5

Paralelepípedo
serpenteando uma cobra
bem pentagonal

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Quaresma

ao sul do equador
para os amantes da rua
sempre é carnaval

Depois da chuva



Um gato de rua
que com sede bebe a poça
lambe a própria lua

terça-feira, 5 de março de 2019

Vontades Barrocas

Que gana danada
de lhe dedilhar
até ouvir seu
arfar e desafinar
em meus ouvidos.

Que fome pesada
de lhe devorar
banquete e apogeu
para me fartar
nos seus gemidos

Que tara ousada
de lhe amarrar
Impio jubileu
para lhe causar
os seus delírios

Eu quero a Cocanha
o festival da carne
em seu corpo macio
Realizar toda a Sanha
que me parte o cio

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Crônica: Império dos Sentidos

Quanto mais eu vivo e experimento, vejo que paladar/olfato são os mais íntimos dos sentidos. Quimicamente, são fragmentos de algo alheio ao nosso corpo que são dissolvidos em nossos órgãos sensoriais que nos fazem sentir aquilo. Trocando em miúdos, o cheiro de uma flor é pedaço minúsculo de uma flor que chegou até a suas narinas, o cheiro da água do mar,  do alho frito na manteiga que desperta a fome, mas também é, para nosso desgosto e repulsa, o de merda.

Numa  noite quente, dessas úmidas que só os trópicos são capazes de produzir quando as terras estão perto de grandes massas d'água, eu acordei com a boca seca pelo ar condicionado, mas, em meus sonhos, chupava sua buceta com sadismo requintado de quem faz gozar e não para de chupar. Essa boca seca me fez buscar água e, no quarto de hotel que estava hospedado, não havia frigobar e a água mineral que tínhamos a disposição era salobra - fora do Brasil a água tem um gosto estranho, mais pesado, quase leitoso. Isso veio me despertar para as coisas da oralidade, minha própria boca seca sendo insultada por aquela água que não era o que devia ser: insípida, inodora e incolor.

A intimidade que tenho com os sentidos seguem a seguinte ordem: visão, tato, audição, olfato/paladar.  Não me incomodo em ver nada, nada ofende minha visão, nudez, feiúra, palavras de ódio, discursos escritos, violência gráfica, fotos e até mesmo o mundo real  consigo usar o pescoço e olhar para o outro lado e evitar o que me desagrada se acaso não puder encarar de frente. Admirar um quadro, fotografia, prédio, pintura rupestre, obras dum mestre da escultura consegue me capturar alguma atenção, mas não por muito tempo, a não ser que sua narrativa me fascine. Se nas artes literárias sou pura forma, é ao conteúdo que me apego nas artes plásticas, isso diz muito sobre o quanto o conhecimento de uma arte molda seu gosto (ou não).

Confesso, minha oralidade é cheia de vícios e cacoetes. Tal qual eu prefiro sonetos do que a prosaica prosa, para me vir contar um conto, preciso de algo que realmente me dê  tesão. Posso dizer o mesmo do beijo e do cunilíngua, que só me apraz quando a inspiração chega-me de jeito. Prefiro um abraço, um chamego, um carinho profundo do que a língua de quem não sei bem se quero e anseio.  E, oras pois, beijo sempre há de ter sabor, pelo menos aquele que desejo. Pois, quando recebo um beijo que não quero, não me causa repulsa, apenas não me causa nada, é como um copo d'água bebido sem sede, é nada, mecânico e vazio.  Eu juro que não entendo o horror homofóbico. O medo e a repulsa. Se não há um desejo recalcado ali, não há sensação a ser despertada. Se um mero abraço a quem desejo me atiça o melhor beijo de quem não me atrai me mantém completamente indiferente. Se isso não acontece contigo, tenho uma boa e uma má notícia pra você...

O tato me é um sentido caro, daqueles prazeres tímidos, íntimos e raros. O prazer de roçar os pés uns nos outros debaixo das cobertas, dos pingos de chuva na pele nua num dia quente, duma ducha fervente num dia frio, o toque do meu corpo noutro corpo macio, dum gato caminhando nas minhas costas de manhã, a crocância de mastigar gelo...  Aliás, amo gelo, ele tem tantas utilidades divertidas, aprendi com meu pai a ter uma enorme caneca em casa, enchê-la d'água até a metade e levá-la ao congelador, depois é só completar e ter água estupidamente gelada por muito tempo. Mas o tato também pode ser incômodo às vezes, porém é fácil de repelir e de se afastar. Afora o calor do Rio, nada mais relacionado a ele me vem reclamar. Mas de fato o calor do Rio de Janeiro me faz  querer arrancar a pele, cortar todas as terminações nervosas que me fazem sentir calor. Daí me lembro que boa parte disso é culpa dessa ideia de jerico de usar a moda europeia num lugar de clima tropical. Faz quinhentos anos que estamos cometendo esse erro de português cá nas terras do Pindorama, os índios devem estar rindo de nós nesses anos todos, suando feito porcos por pudor por causa dum amigo imaginário, censurador e sanguinário.

Ela implorava para eu parar e eu ali continuava. O sonho era uma bricolagem de experiências passadas, de algumas delas, e nessa ela havia me pedido as amarras e estava lá de mãos e pernas abertas, atadas e amarradas, gemia, arfava delirava e eu a chupava enquanto seu corpo tremia e gozava. As amarras entraram na minha vida há mais de uma década, são acessórios de arte, um prolongamento estético que tornam o sexo de minutos para horas, Cada nó, amarra é um deleite, um tesão, uma vontade única feita cuidado e a pedido de quem normalmente é a parte atada. Ela, amarrada ali, sendo chupada, chegava a orgasmos que não se permitiria chegar solta, que pediria para parar antes, que fugiria, que violentamente reagiria. As sensações de prazer alcançadas são fascinantes de se observar ,é muito melhor que qualquer experiência outra, é o melhor instrumento musical que eu poderia querer.

Já com audição o problema fica mais sério. Os sons são extremamente invasivos e é difícil evitá-los. Tenho problemas sério com barulhos desnecessários feitos por capricho ou burrice, como é o caso de foguetes e buzinas. Quanto aos foguetes não gosto mas tem quem goste, xingo só e fico no meu canto. Mas tenho verdadeiro rancor de quem usa buzina, é totalmente inútil, só faz barulho, incomoda e não resolve qualquer problema, se eu fosse rei da porra toda instituiria um tacógrafo em cada veículo que cobraria 0,01% do valor do veículo ao ano por buzinada que o motorista desse. Porque quanto maior e mais caro o carro mais o sujeito se acha dono da rua e no direito de abusar de nossos ouvidos. Quem me dera que os sons só chamassem a atenção com as assonância de um verso, as cacofonias de um poema rude, as rimas encadeadas, interpoladas ou emparelhadas de um soneto, mas a musicalidade é a ponta do universo dos sons e meus ouvidos não são daqueles que ouvem musicalidade em tudo.

Tenho na ponta da língua minha técnica, um esquecer das horas, do tempo e me atento ao meu instrumento musical de suspiros, gemidos, frêmitos, tremores. Descobrindo como, quando e o quanto cada movimento meu de língua, dedos, lábios e dentes causam o melhor resultado. Porque claro, ao contrário do que prega-se por aí, cada buceta é única e o que vale para uma não vale para a outra. Não diria sequer que há no mais das vezes, onde tocar, onde lamber, onde se morder e tudo isso sem adentrar nos anais da questão do cu.  

O olfato, eis um sentido efêmero que costumo relegar e esquecer tantas vezes. Mas o cheiro de Dama da noite não me deixa esquecer da praça da liberdade onde comi meu primeiro cu num terreno baldio, uma tentativa frustrada, é verdade, mas uma tentativa. Estava bêbado demais, deu em cima de mim, me beijou, me levou pra lá, desafivelou meu cinto, abriu o zíper, meu chupou até ficar duro, colocou a camisinha, abaixou as calças e colocou-me dentro. Bombei desajeitado, meu pau escapuliu e o vi sujo de merda, não sei bem como mas senti vontade de mijar e anunciei que gozei. Estava bem bêbado, mijei dentro da camisinha. Não sei bem como mas nós nos despedimos, nunca mais vi depois desse dia de meus dezesseis anos. Mas o cheiro de Dama da Noite já esteve presente em inúmeras ocasiões, um cheiro que adoro e que quero plantar em meu jardim.  O Rio de Janeiro com seu cheiro de maresia e sexo nos recebe como mangue e esgoto mas torna familiar com o tempo como também e não o cheiro do cerrado mineiro que é um no Jequitinhonha e outro na Serra do Curral Del Rey. E dos cheiros, o único que me afasta é o do pequi, fruto do cerrado de cheiro tão intenso que foi capaz de atentar contra meu sentindo favorito e mais ousado, o paladar.

Ela gozou e eu parei pra observar um pouco, conhecia bem aquele corpo e sabia o que viria a seguir. Alguns segundos de respiração descompassada, olhos semicerrados, boca entreaberta e quando parece que ia se acalmar, o corpo todo se irrompe num novo gozo como uma descarga  elétrica lhe percorrendo por inteira. Já vi essa cena inúmeras vezes mas me sinto um expectador privilegiado sempre que atuo a causar tal espetáculo de êxtase. Um orgasmo em três tempos. O primeiro comigo inteiro e que se prolonga na agonia de meus dedos, o segundo tempo de calmaria e terceiro desta combustão espontânea que nunca soube de onde surge ou como surge.

Paladar, sentido apurado, sentido que tenho guardado e do qual só chega até mim o que e como eu permito.  Sou um curioso, um experimentalista. Estou certo que morreria intoxicado se fizer um tour gastronômico pelo interior dos tigres asiáticos.  Será que alguém ainda usa essa arcaica expressão dos livros de geografia dos anos noventa? Os tempos mudaram tanto, as mudanças foram tantas e os tijolos que construíram os BRICS será que vieram de lá? Faço meus próprios experimentos dentro da cozinha. Cama e fogão, meus domínios favoritos, os espaços de minha casa que pensei nos mínimos detalhes para saciar meus prazeres domésticos. Com a mesma desenvoltura que faço um prato novo e introduzo um ingrediente inusitado, eu experimento algo que nunca provei antes. Só o fato de nunca ter provado já me basta para querer. Moqueca de Banana da Terra com Carambola,  Cordão de Filé Mignon Serenado, Sushi no Pau, Uramaki de Damasco e toda sorte de invenções que o paladar aceitar farei. Minha restrição só são os doces, até mesmo para as bebidas: sucos com muito pouco açúcar e, etílicos, prefiro o restrito e malfadado Bloody Mary, extremamente condimentado, que gera inspirações para poemas e fodas.

Quando alguma mulher diz “toda mulher gosta de ser tratada assim ou assado”, é sempre de bom tom tratá-la exatamente como ela demanda, porém convém saber que esse “toda” se refere exclusivamente a ela. A multiplicidade de seres e expressões do desejo é absurdamente maior do que poderia entender um único ente desejante. Se alguma nega, renega ou censura o gozo de outra, ali tem algo sobre o próprio prazer dela. Se há carinho e tesão, pode ser um caminho para ser explorado com cuidado. Muito cuidado!

Como vagueio de bar em bar procurando meu Bloody Mary e raramente encontro, assim também meu paladar restrito me leva naturalmente a pensar que sentir o gosto de outra pessoa é a maior intimidade que eu posso ter com alguém. Foder de camisinha me parece  bem menos íntimo do que um longo e apaixonado beijo onde conheço a fundo o sabor de sua saliva. Sim, eu transaria com bem mais pessoas do que aquelas que eu beijaria, pois o paladar me é um sentindo muitíssimo mais íntimo que o tato, visão ou audição.

Eu lembro agora de um medo das oralidades advindos de sádicas mordidas inoportunas de outrem que já foram resolvidas com pedras de gelo usadas divertidamente. Misturar frio com calor dá um tesão daqueles tanto pra língua quente e o gelo dialogando com a buceta, como também o gelo dentro da buceta e o diálogo do pau entrando na buceta quente e sentindo o gelado gelo lá no fundo. Ambos são um tesão. Essa transa ficou para os anais da história, com o perdão  novamente pelo, desta vez, duplo trocadilho, pois foi esta historiadora que me ensinou também os primeiros passos das práticas sodomitas.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

50º

Tórrido desespero
no Rio de Janeiro
olhei com carinho
cobiça e desejo
para o carrinho
de gelo do bicicleteiro

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Naufrágios

Escuta bem meu amor
você precisa repor
os barquinhos de papel
que deixou cá no painel

do meu carro pois ao sabor,
das trilhas do corredor,
entre montanha e mainel,
fez-se mar em nosso céu

Cada curva dessa estrada
naufraga um bravo barquinho
que você pôs na travessa

Volta minha artesã amada
quero suas mãos com carinho
pois eu lhe tenho pressa

domingo, 18 de novembro de 2018

Com carinho e fome

Minha cadela de rabo agitado
a sua língua faz falta nos meus pés
lambendo-me de quatro no quadrado
revirando olhos, me vendo de viés.

Pé, perna e pau vai me lambendo todo
quer ser minha Náu guiada do convés
nos apoios de polegar do dorso
pra me rebolar sem pudor ou revés

Vem cá cadela de prazer contido
em cada arfar em cada  gemido
abafado pelas minha mão macia

Vem cá cadela com seu rabo ardido
pelo meu deleite sádico imperativo
que lhe ordena tal a fome acaricia

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Chuva

Sim sou bem cruel,
pois que me beba dourado:
tal se fosse mel

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Pena dos poemas

Bem eu não espero
sou só desespero
Não por mim mas sim
por quem o seu fim

Vem pelo milico
servindo o rico
cidadão de bens
posses e amens

No fio do esmero
sádico e sincero
Virá tal marfim
sangrando o capim

Pisando na grama
com força da grana
e nos corpos pretos
pardos, mulatos

Nossos nativos
mais mortos que vivos
serão só retratos
dos livros mais gastos

Fica sem história
sem uma memória
do que nós tentamos
sem flores, só danos

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Encruzilhada

Não dá para ser tolerante com quem prega a intolerância. Não dá para ser democrático,com quem prega a ditadura. Não dá para amar, quem prega o ódio.Se você apoia a tortura, a censura o ódio não serei tolerante e aceitarei seu apoio ao crime como mera opinião.

Sua posição ameaça diretamente a minha vida pois não sou viado mas pareço viado, ando com viado e amo meus amigos viados. E cada um que morre, tem medo e é expulso de casa, da comunidade, da igreja, da família e dos amigos tem em mim a empatia de que poderia ser eu. E que de certa forma é.

Não sou negro mas também não sou branco e dói em mim cada negro que é barrado, ameaçado, humilhado e assassinado por ser negro. Como posso viver bem se eu passo pela blitz e meu amigo negro não? Como posso ficar em paz se lhe negam tudo até o pão? Ressentimento contra cota não se faz no meu peito não.

Não sou mulher mas amo as mulheres da minha vida, são meus exemplos na poesia, na política, no dia a dia e no amor e dói em cada vez que vejo uma presa onde não gostaria de estar, sendo menos que gostaria de ser por ser mulher.

Não sou religioso, pelo contrário sou ateu, mas  a liberdade de crença e não crença está igualmente ameaçada pra mim e por todos que não prestam vênia pro mesmo Deus único. Posso não crer nos seus deuses, mas cada orixá, cada deidade que é perseguida tem por trás pessoas com seu direito violado, cada terreiro destruído, queimado me faz temer que posso ser o próximo a ir pra fogueira.

Tenho meu teto, meu pai tenta tocar a pequena fazenda que era da família como meu avô e depois minha avó fizeram e por isso vejo os sem casa e terra como meus irmãos,  desejando que eles tenham seu canto para morar e trabalhar. Com tanto latifúndio, com tanta casa vazia. Não quero mais que recebam tiros quando pedem dignidade. Não quero mais que vivam nômades quando querem transformar o campo e a cidade.

Temos finalmente a cara verdadeira ao sol de quem sempre se escondia atrás de outros discurssos. Eu não tenho mais medo hoje do que eu tinha há 4 anos.  Pois vocês que viviam nas sombras já estavam aí votando da mesma forma nos mesmos candidatos.  Já pensavam como pensam hoje só não tinham a coragem de mostrar a cara. 

Nossos racismo velado, nossa falsa conciliação de classes ou mito do Brasil cordial finalmente cai por terra. Vocês que sempre sabotaram nosso país, nossa esperança num país mais justo e igual agora falam isso de peito aberto. Como é bom isso!

Falam agora abertamente pois não toleram o pouco progresso que tivermos ao longo desses anos, não toleram que os negros  possam ocupar uma cadeira nas universidades, que gente com "cara de empregada e porteiro" possa ter uma vida digna, ser quem seus sonhos quiserem, não toleram um casal andar de mãos dadas apaixonados se esse casal não for formado do jeito que vocês querem,  não toleram que os bens de consumo estejam acessíveis a todos, temem que nos vermelhos tomemos seus Palios parcelados pois acreditam que é possuir bens de consumo que faz de alguém rico. 

Não, vocês não são ricos, não eu não sou rico por viver com dignidade. O que eu e vocês temos acesso é o mínimo  e se sentir afrontado por cada vez mais e mais pessoas possam viver assim é mesquinho. Quero mais e mais aeroportos com cara de rodoviárias e rodoviárias às moscas pois teríamos as ferrovias que seus idolatrados milicos desmancharam.

Como gostaria que fosse minimamente verdadeiro o delírio da URSAL e da ameaça comunista! Nesses treze anos que vivemos de justiça social nunca em tempo algum caminhamos para essa direção. Caminhamos sim em direção a uma economia menos subalterna, menos precária e dependente de mão-de-obra barata.  Não é exatamente o que eu queria e nem faz sentido exigir isso do partido que elegermos, revolução nunca fez parte do plano de governo de 2002 pra cá.

Costumo dizer que não sou socialista e sim socioegoista pois o único jeito de termos a tão sonhada segurança, a tão sonhada liberdade de ir e vir sem medo não é com armas é com justiça social e fim a guerra às drogas.  Só vamos poder andar em paz nas ruas quando o vício virar questão de saúde. O crackudo só existe por essa guerra é um subproduto que corrói toda a sociedade e que a violência que vocês pregam nunca será capaz de eliminar. Sou socioegoista pois sei que só viverei em paz no dia que todo mundo tiver o seu mínimo garantido, sem isso o pouco que tenho é visto com cobiça máxima, está ameaçado e não há arma no mundo que me defenda todo o tempo o tempo todo.

Minha avó,fazendo piquete na estrada e enfrentando advogado apontando arma pro seu peito para não deixar o rio de sua cidade secar, me ensinou desde pequeno que nós precisamos lutar por nossa existência. Temos que ser resistência,  temos que fazer valer o bem para todos e não somente para o cidadão de bens que um ou outro possa ser ou sonha ser.

domingo, 2 de setembro de 2018

Barroca

Chega nua no meu ninho
bem vestida de suas taras
de dar para minhas garras
o seu tão doce corpinho

Faço todas as amarras
com calma e com carinho
enquanto isso no caminho
Lhe preparo para as farras

Eu lhe unjo seu cofrinho
com óleo de prazer
e aroma de cuidado

Ela bêbada de vinho
grita ao se perceber
com seu rabo enrabado

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Das folhas secas na ruas

Sujeira quem faz é carro e
quem anda com cão sem saco
de catar caca do chão

Crianças, plantas e pássaros 
não sujam só redecoram
o mundo com suas cores

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

MEDO DA POLÍCIA

Segunda-feira voltando para casa depois de trabalhar até às oito da noite atravesso o túnel Noel Rosa falando com minha mãe no viva voz do telefone.

Escuto então a sirene de uma viatura da polícia atrás de mim, eu dou seta e mudo de faixa para a direita, reduzo a velocidade para permitir a passagem dela.  A viatura vai para trás de mim ainda com a sirene ligada. Eu sem saber o que fazer reduzo mais ainda. Eles então emparelham comigo e ordenam que eu encoste no posto. Minha mãe percebe meu nervosismo e eu digo que a polícia me mandou parar.

Encosto no posto, desligo o carro e espero a polícia parar com os pulsos apoiados no volante e as mãos abertas. Sinto medo, muito medo. Qualquer movimento errado que eu fizer pode ser justificativa.

Ele pede pra eu sair do carro, eu desço com as mãos abertas a meia altura, saio e encosto as mãos abertas no capô do carro. O policial ri de mim e diz que eu não preciso fazer tudo isso, fico calado, de pernas abertas. O primeiro me revista e dá um tapa no meu saco. O segundo me revista e é mais agressivo que o primeiro.

Me pedem para abrir o porta-malas do carro, encontram a bola colorida do meu menino e uma caixa com livretos de poesia e papel colorido. Me questionam o porquê daquilo de onde eu sou, se eu sou do Rio. Eu respondo que sou de Minas mas que tenho casa aqui. Nenhuma resposta parece estar correta para eles. Revistam, reviram e retiram todo o conteúdo de minha bolsa.

Pedem o documento do meu carro eu entrego aliviado por saber que está tudo em dia.  Ele pega o documento e diz que está faltando uma parte, estou surpreso, digo que não falta nada. Digo que eu passei numa blitz um mês antes e fui liberado com esse mesmo documento.

Dizem que meu carro terá de ser rebocado e pagar uma multa de 512 reais. Pedem pra eu procurar no carro se eu não acho a parte faltando. Enquanto estou procurando um deles vem me perguntar se eu tinha bebido eu respondo que não, que só tinha bebido café. Ele me pressiona e diz que até um chocolate com licor é o bastante pro bafômetro. Me intimida perguntando se eu faria o teste eu afirmo que sim e ele pede pra que eu o acompanhe.

Mais perto da viatura o que estava falando comigo da voz para o outro e fala que realmente vai ter que rebocar meu carro. Eu cansado, peço para me devolverem mina CNH pois iria de táxi pra casa afinal não havia nada pra resolver ali é amanhã iria ao Detran perder un 3 dias de trabalho para reaver meu carro.

Ele tenta distorcer o que eu disse e fala que eu tinha dito que estava a passeio. Eu nego. Me pressiona novamente dizendo que além da multa eu teria que pagar as diárias do pátio. Resignado escuto calado. Ele fala que ia falar com o delegado de plantão sobre o meu caso. O outro policial se "esquece" do bafômetro e se afasta no rádio.

O policial que fica me pede para me afastar da viatura pois ela está gravando. Vamos para perto do carro e ele pergunta se eu quero que falem com o delegado. Eu digo que não. Ficamos ali parados alguns segundos e ele fala que vai me liberar. Me ameaça de consultar o sistema pra ver se. Minha CNH está em dia.

Se despedem de mim, entro no carro nervoso e espero eles partirem antes de ligar o carro, meio desnorteado vou para o lado errado e tenho que manobrar o carro. Ligo pra minha mãe que está tanto ou mais nervosa que eu. Ligo pro meu pai pra acalma-lo também. Chego em casa tremendo de nervoso.

No dia seguinte sou parado numa blitz de verdade. Me pedem os documentos, me pedem para descer do carro e abrir o porta malas. O policial passa a lanterna nos documentos e no porta malas. Me libera sem mais problemas.