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Poeta e apenas poeta

Já me olharam espantados quando digo que sou poeta e só poeta. Que não canto, nem danço, nem atuo, nem pinto, nem bordo, que "só" ...

quinta-feira, 29 de julho de 2021

porquê a verdade não vence a mentira

Não há argumentação possível contra negacionistas ou revisionistas históricos. É uma questão de economia básica. Enquanto a ciência prescinde de pesquisa, estudo e elaboração para corroborar suas teses o revisionismo precisa só de criatividade, retórica e imaginação. 

Ou seja: O tempo que eu gastaria comprovando que esse texto é uma bosta é muito maior que o tempo que gastou quem escreveu esse espantalho.  E mesmo se eu refuta-lo o autor pode simplesmente inventar outro argumento tirado da bunda sem qualquer trabalho. 

Por isso só dá pra discutir com quem está usando os mesmos paramentos técnicos, o mesmo rigor científico. Fora disso é pura perda de tempo.

Para combater notícias falsas não basta  jornalismo competente ou esclarecimento científico. É preciso de força política e econômica. Por isso iniciativas que cortam o financiamento dos propagadores de mentiras são muito mais eficientes que sites de checagem de fatos.  Checar fatos é um instrumental que legítima as ações de combate às mentiras. Mas sozinho, esse instrumento, não é capaz de mudar a propaganda de mentiras.

domingo, 11 de julho de 2021

Terra dos Troncos de Fogo

Os Primeiros foram aqueles que nunca vieram pois sempre estiveram em suas moradas entre árvores, em seu respeito pela floresta que tudo lhes dava e nada cobrava. Depois vieram os Orgulhosos das terras além-mar, cobiçando a água, a terra e até o ar. sangrando o solo com seus arados, cortado as matas com seus machados, ferindo as montanhas pelos cobiçados tesouros dentro delas guardados. 

Os Primeiros receberam os Orgulhosos pois as terras eram vastas, muito mas vastas do que tudo que precisavam. Mas não vastas o bastante para a cobiça dos Orgulhosos cuja avidez era mais forte e mais intensa, sua ganância imensa era sua força e por ela mataram, expulsaram e escravizaram os Primeiros. Os Orgulhosos, por terem seus braços menores que sua cobiça, trouxeram escravizados um povo forte, de fé e de suas terras distantes apartados. 

Os Resolutos e os Primeiros foram forçados a construir todo o reino dos Orgulhosos, suas cidades, suas fazendas, suas Igrejas, não há sequer uma pedra colocada no calçamentos de suas ruas que não tenha sido feita por eles. Mas os belos povos não entregaram sua alma aos orgulhosos e nem rejeitaram seus próprios deuses, confidentes uns dos outros aguardaram por eras por um momento. 

E o momento foi do Cataclisma que despertou na terra e no mar todas as criaturas que se ocultavam desde antes dos Primeiros. Caminharam pela terra todos os deuses e nos mares foram engolidos todo navio longe do porto,  e cada embarcação que ousasse cruzar o oceano. 

Os  rios viraram sangue durante o Cataclisma, sem as armas vindas de além-mar os Orgulhosos foram enfim enfrentados. Os Primeiros reconquistaram suas terras longe da costa. Os Resolutos quebraram seus grilhões e expulsaram das Terras do Norte Oriental os Orgulhosos. 

Após o Cataclisma, nada mais voltou a ser como antes. Não há mais qualquer contato com os reinos distantes, o Oceano de Atlas é intransponível e mesmo o mar além das montanhas do Ocidente é perigoso. 

As guerras foram de séculos mas um mestiço de sangue Orgulhoso, Resoluto e Primeiro ascendeu ao trono esquecido e com sua maestria convenceu cada rei a depor suas armas. Sem mais sangue, sem mais guerras até o Rei das Terras de Prata reconheceu o Rei Mestiço como seu imperador e assim a paz reinou por mil anos.

Porém durante o reinado da Rainha Delmora filha do amado Rei Ludovico surge Iahire, um guerreiro Orgulhoso da linhagem real, se ressentiu por ser preterido como herdeiro ao trono Imperial. Ele se alimentou pela ganância de seus antepassados e tramou junto a Guarda Real, os Clérigos da Cruz e os Barões de Terras sua própria ascenção. Para seu itual profano sequestrou os primogênitos dos Reinos de Prata, do Sul Oriental, do Norte Oriental e do Ocidente. E sacrificando-os absorveu sua linhagem e foi proclamado por seus seguidores como a restauração do Rei Mestiço. 

Com seu trono contestado, Delmora acabou enredada por uma rede de intrigas e golpeada por seu outrora fiel conselheiro Temerius. Ele manipulou todo o conselho real para declarar que a rainha havia enlouquecido, Delmora foi então enviada a um Sanatório e  Temerius foi nomeado tutor dos príncipes Villelmus e Immanuelina e assim governou com uma junta de conselheiros fantoches por 5 anos todo Império do Tronco de Fogo

Os Clérigos da Cruz, contrários a Temérius, por ele pertencer a um culto ligado ao antigo culto a Adonai, e os Barões de Terra, por ele ser ligado a Liga do Vapor, incitaram  com fiés e ouro a ascensão de Iahire ao trono. Iahire nesse momento já havia aprisionado dentro de si muito mais almas através de rituais profanos e seu poder era temido. Temerius não era páreo para enfrentá-lo e o ofereceu seu lugar sem enfrentamento em troca de permanecer como conselheiro real. 

Iahire no primeiro momento era apenas tutor dos filhos da Rainha porém soldados ainda leais a Rainha descobriram um plano de morte para o príncipe e a princesa elaborado pela própria Guarda Real. Num plano ousado conseguiram resgata-los do Castelo Vermelho. Porém isso apenas deu mais poder a Iahire que se outorgou plenos poderes e dissolveu o conselho em nome de uma caçada aos supostos sequestradores da familia real. 

Três décadas se passaram, os Reinos agora são governados por nobres Orgulhosos nomeados pelo próprio Iahire que governa todo o Império com terror. Há canções clandestinas clamando pela volta dos príncipes.  Há bandoleiros mestiços percorrendo as fronteiras dos reinos. A liga do Vapor está cada vez mais decadente, seus trens, suas ferrovias e suas  fábricas minguam enquanto os Barões das Terras, Guarda Real e Clérigos da Cruz ganham terreno, poder e influência cada vez maiores.



quarta-feira, 7 de julho de 2021

Atenção

Aqui tudo bem se ajeita
tem caos, bagunça, tem treta
e meu psicomotor
chega a ser um horror

Minha mente não é feita
de arquivo, armário, gaveta,
fichário organizador...
Nada tem lugar pra por

Hiperfoco no hiperléxico
minha hiperatividade
tem doses de ingenuidade

Concreto, nunca hipotético
sou distraído em cada ato
real, sonho ou abstrato

sábado, 26 de junho de 2021

Dentre trilhas


André Cruz Moreno Siqueira
brilhante de alma tão farreira
que me convida pra tanta
festa que logo me desanda 

É minha avis rara, guerreira
o melhor vinho da videira
que me embriaga pois me canta
todo o fôlego da garganta

Lhe passeio no seu território
pois lhe conheço no ser homem
pruma fome que ninguém dome 

Eu lhe quero saber de tudo 
em cada saber mais profundo
de sua boca, de seus olhos

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Marina Mares de Morros

Bela Marina Araújo Teixeira
sigo, sedento e ávido na esteira
de suas palavras de seu véu
e pela sua voz inenarrável

Sua canção chega deixada a beira
do delírio duma verdadeira
musa, uma heroína de cordel
Riobaldo e Diadorim num tropel

Suas letras jurídicas me narram
entrelinhas de pura poesia
com melodia de voz e violão

São veredas e caminhos que esbarram 
na narrativa que me descaminha
o ritmo leve do meu coração

Galanteio

Pedro Henrique Ferrari Lessi Rabello
serão seus olhos, sua barba o meu novelo 
que desfio elogios que desafio o firmamento
e escrevo letras lindas a todo momento

Miro em sua voz, óculos e cabelos
e acerto sonhos lindos e sinceros
vagando em ti e em mim como se fosse vento
que varre em versejar e no proseamento

Lhe conto histórias, as mais felizes que tenho
ilustrando seu coração com meu engenho
e meus planos de alcançar o céu de sua boca

Porque seu núbio empenho é belo, sincero
que como bom espectador vejo e desvelo
um conto de princesas e rainha louca

A uma musa


A Debora Freire de Lima
é meu verso, minha rima
das letras é minha musa
que de tão perfeita abusa

Do meu sonho, minha estima
dos deuses uma obra prima
que nos meus olhos repousa
pois sua maravilha ousa

Ser mais brilhante que o sol
e bem mais bela que a lua
tão intensa quanto as marés

lhe sigo tal girassol
um nenúfar que flutua
pelas águas aos seus pés

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Oralidade e Escrita


A leitura silenciosa que estamos acostumados a fazer é um fenômeno recente para as artes literárias. Até o advento da imprensa a leitura era uma atividade que envolvia a fala. Poderia ser através de murmúrios que acompanhavam as linhas do texto ou como Platão que ,lia a plenos pulmões.  A oralidade tão marcante nos textos antigos também pode ser vista pela hegemonia dos versos em detrimento da prosa. 

O verso é por excelência oral, foi através da oralidade que surgiram as primeiras versões da Ilíada e da Odisseia. Foi pelo caráter mnemônico que os primeiros aedos registravam na memória os milhares de versos que compõe essas epopéias numa época em que a cultura helênica ainda era ágrafa. O papel da escrita começa como mero registro para só muito tempo depois adquirir um estilo próprio, o fluxo de pensamento, o ritmo de leitura através da concatenação de ideias é um fenômeno muito mais recente que o fluxo ritmico causado pelas sílabas poéticas, pela alternância de sílabas longas e breves do grego ou das sílabas átonas e tônicas do português. 

O período da hegemonia dos versos é também o período marcado pelas grandes epopéias. Além das gregas temos a romana "Eneida" e a suméria "Gilgamesh", ainda na antiguidade clássica. No medievo temos a inglesa "Beowulf" , a germânica " Parzival" e a consolidadora do idioma italiano "A Divina Comédia".  Com o advento do renascimento surgiram novas epopéias como "Os Lusíadas" e "Paraíso Perdido". 

Porém conforme o fluxo mental, a prosa e a leitura silenciosa avançam, suplantando o veros, o ritmo e leitura em voz alta, a Epopéia também cede espaço para novos gêneros textuais o Romance e a Novela são frutos diretos da imprensa, eram, originalmente, publicados de maneira seriada em jornais. Onde cada capítulo vinha na edição do periódico vindo após as páginas de notícias tal qual ocorre até hoje quando as novelas se intercalam com os jornais na televisão. 

O texto em prosa não é feito para ser lido em voz alta, seu fluxo mental não obedece o fôlego da oralidade. Se o cordel com suas redondilhas pode ser contado verso a verso pelo cantador ou o repentista pode improvisar toda uma história se segurando ritmicamente nas sete sílabas de seus versos o mesmo não pode ser feito ao ler Machado de Assis, José de Alencar ou Paulo Coelho. A prosa exige um fôlego que apenas a mente consegue acompanhar, a lingua, o pulmão e a boca operam numa outra lógica.  Porém apesar da hegemonia do fluxo mental imperar contemporaneamente e a poesia moderna abdicar do ritmo natural ou formal há casos onde autores subvertem a lógica da prosa silenciosa e resgatando a oralidade nos trazem uma nova poética, agora em prosa como podemos ver em Clarisse Lispector e, principalmente em Guimarães Rosa.  

Grande Sertão: Veredas é profundamente calcado na oralidade, no falar do sertão. Sua leitura silenciosa atropela nuances que apenas a oralidade é capaz de captar. É uma 'epopéia contemporânea" num mundo o silêncio da prosa tradicional é hegemônica. Resgata toda a cadência, todo o ritmo da versificação que mesmo os nomes mais aclamados da poesia fizeram um laborioso trabalho de se distanciar. 

A literatura oral, aquela mesma que Benjamin exalta em seu texto "O narrador" é o substrato mais profundo da comunicabilidade humana, é por ela que e transmite universos e realidades por gerações e como diria Marcuse: "a poesia torna possível o que já se tornou impossível na prosa da realidade. Pois é em versos que o homem diz das últimas e verdadeiras coisas."

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Road Trip

A história que conto agora
já até se foi sem ter sido
era segredo muito embora
por todos fosse sabido
menos pois pros dois viventes
que mais que muito se amavam 

Ela santa, ele vilão
tanta fome revelada
Barroca igreja, emoção
uma aventura ensaiada
e no carro o vidro enturva
pelos dois em pura bala

Era assim antes de outrora
o seu fogo ensandecido
que a boca sedenta chora
por onde é bem sabido
eis tão amados amantes
que na prosa planejavam:

"Belo Horizonte é visão
mas não terra destinada
das Minas Gerais sairão 
pela noite na calada 
numa lua que murmura
pra estrela vestindo gala"

Sem feito o plano embolora
mas do seu jeito sabido
ela é musa que colabora
c'o jeito desatinado
dele de amar tal ardente
fome que jamais amansam 

Road trip por todo sertão
uma viagem ousada
trinta horas na direção
ao lado da moça amada
os sonhos no porta-luvas
pois a estrada bem embala

E trocando a marcha rola
um carinho dele atrevido
ela compraz e lhe consola
os dedos num divertido
de dois corpos e uma mente
que do mesmo sopro aspiram

Cecília, seu coração
é guia e norteia em cada
quilômetro do estradão
mas a sua ritimada 
vem do gole de fanta uva
que a doçura lhes iguala

São vintage, na vitrola
do carro vem o alarido
de Caetano e cantarola
ela com mais um pedido
que gata pede somente
um Raul que jamais olvidam

Nas letras duma canção
pelas rodas pela estrada 
embalando na paixão
ao lado da moça amada
os dois nas retas, nas curvas,
desejos no porta-malas

A vontade descontrola
encosta o carro perdido
E os lábios dela devora
pelo convite atrevido
dela de assim sutilmente 
revelar o que ambos clamam

No cerrado, imensidão
tudo pois pruma picada
de aventura e de ilusão
que esperam lá na chegada
serão eles sol e chuva
duma voz que nunca cala

Vida dentro mundo fora
o carro desapressado
sem ter pra chegar sua hora
no tempo do delicado
deleite que tal corrente
seus sutis elos se selam

Cada serra e serração
e cada casa caiada
testemunham nesse chão
os amantes da cilada
embebidos na araruva
e segredos de cabala

Entre  um causo e uma história
o sol desce avermelhado
a paisagem rememora
o mundo dos exilados
seu contento descontente
é aquilo que mais esperam

Querem canjica e quentão
festa junina ensaiada
nas terras desse sertão
numa noite aluminada
pela fé na ciência pura
e na utopia que espalha

domingo, 6 de junho de 2021

Metapoética

Minha poética expande
pelo meu lirismo e pede
pra queimar esse baralho
de verso-livre-espantalho

Eu não sou Jack, não sou Gandhi
o meu modus operandi
conserta meu verso falho
metro e rima sem atalho

Corto frases, conto sílabas
retalho versos pra forma
que confirma a eufonia

E todo e qualquer escriba
que nunca se conforma
sou eu nessa poesia

sábado, 5 de junho de 2021

Confessionário

Nosso altar, nossa benesse
essas são noites tão frias
sem aquarela, sem prece
de suas mãos sobre as minhas 

Irmã minha que padece
cúmplice da mais vadia
vontade que nos aquece
e sonha todos os dias

Cecília, pelos seus olhos
eu me via bem melhor
do que sou, fui ou serei

Sim, sou eu de sonhos falhos
mas ainda sei de cor
os olhos que mais amei

quarta-feira, 26 de maio de 2021

terça-feira, 25 de maio de 2021

Sampa, uma mímesis da Paulicéia Desvairada

Mário de Andrade dá como mola propulsora de seu prefácio como advindo de uma ideia crítica de um editor ao seu livro. A sugestão orientava para que o poeta criasse uma apresentação para seu livro de poemas, uma forma de orientar seus leitores na leitura de seus versos, entretanto questiono esse caráter meramente didático das páginas iniciais de seu livro. Há ali elementos que passam muito ao largo da mera explicação e são, sobretudo, uma prescrição de como a poesia irá se comportar pelas páginas posteriores do livro Paulicéia Desvairada.


Não costumo ler prefácios. Costumo partir logo para o texto propriamente dito, porém Mário de Andrade, ao nomear o seu como "Prefácio Interessantíssimo", aguçou minha curiosidade. Eu quis saber se era pretensão ou chiste do autor a motivação que o levava a inaugurar assim seu livro Paulicéia Desvairada. E posição do autor: “Aliás muito difícil nesta prosa saber onde termina a blague, onde principia a seriedade. Nem eu sei.” não facilita em nada essa investigação. Confesso que terminei o prefácio e li cada poema com essa dúvida em meu paladar. 


Seu prefácio é um convite à investigação, uma verdadeira armadilha de ideias colocadas, engenhosamente, umas sobre as outras. E ao confrontar poemas e prefácio surgem gratas surpresas esperadas. E tenho fortes motivos para acreditar que é jogo de cena do seu próprio lirismo quando afirma que  "Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita" e diz logo mais que seu prefácio é uma justificativa a posteriori da obra acabada.


A estrutura de seus versos é completamente contrária a essa afirmativa de escrita inconsciente há um cálculo, uma estruturação metódica verso após verso que cria toda uma estrutura dificílima de crer como obra de uma escrita não calculada. Entretanto, se o eu lírico se arroga de ser um demiurgo que pode falsear todas as palavras de sua obra. Ele não pode, ainda assim, se esquivar do fato que existe uma obra e esta obra, dentro de sua lógica interna, possui seu próprio valor de verdade.  


Por mais que, ao longo da sua introdução, a voz do texto reafirme a impossibilidade de saber a verdade. O texto a possui ( a verdade) mesmo que não possa ser extrapolada para além de suas páginas. A questão da flecha atingir o alvo ou de se atirar a flecha e depois pintar o alvo ao redor é uma questão que objetiva divertir o seu lirismo mais do que ser uma questão passível de resolução. Com essa aporia parto para a análise da possibilidade de que há sim uma lógica interna entre a prescrição que consta no prefácio e os poemas subsequentes.


Mário de Andrade em seu prefácio da Pauliceia Desvairada discorre longamente sobre a estrutura da poesia, propõe seu próprio método para se contrapor ao vigente e considerado por ele arcaico em comparação às outras artes como a música que há muitos séculos já teriam abandonado o uso de uma estrutura meramente melódica. E em oposição, a esta estrutura, propõe o verso harmônico e mais declara guerra à rima, lembrando que Homero dispensava as mesmas e tinha assonâncias admiráveis.  Entretanto, mantém aberto o espaço para a galhofa ao dizer que: "A língua brasileira é das mais ricas e sonoras. E possui o admirabilíssimo “ão”.  Porém o que parece ser uma piada descompromissada com a rima que é talvez a mais pobre da língua portuguesa, que os manuais da boa poesia recomendam evitar,  é na verdade a primeira prescrição de como se dará a poesia dessa obra.


Diz Brandão em seu Consciência e criação na poesia de Mário de Andrade:


“Nesse sentido é que me parece que os metapoemas de Mário de Andrade representam uma de suas contribuições para o "ajuste do pas so" da poesia brasileira com a concepção e a prática da poesia mo derna. Isso se dá na medida em que ele caminha pelos poemas, princi palmente no "PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO", rompendo sua unidade lírica através da fusão de elementos de teoria, de história, de confissão pessoal, de exemplos, de postulações críticas, etc., tudo fundido com os materiais e procedimentos criativos que ele tem à mão, incluindo-se também os seus próprios condicionamentos poéticos, re conhecidos ou não.”


Entretanto apesar de indicar os elementos constitutivos da poética que são indicados no prefácio Brandão não procura ao longo de seu texto investigar a presença e permanência dessas estruturas nos versos que compõe a Paulicéia Desvairada. 


O “prefácio interessantíssimo” é mais do que uma apresentação do seu texto, Mário de Andrade constrói um conjunto de regras, um sistema de normas e restrições com os quais irá construir os poemas do livro. Algo bem parecido com o que o OULIPO irá propor algumas décadas depois. Talvez Mário de Andrade seja também "um rato que constrói seu próprio labirinto de onde se propõe a sair.” tal qual os membros do OULIPO viriam a se identificar.


Como exemplo do percurso que o poeta segue em sua construção poética temos justamente o uso de rimas em ão como prescreveu em seu prefácio como aparece no início do poema "Paisagem nº1":

"Necessidade a prisão 

para que haja civilização?"


E também no poema Tristura:

"Profundo. Imundo meu coração... 

Olha o edifício: Matadouros da Continental. 

Os vícios viciaram-me na bajulação sem sacrifícios... 

Minha alma corcunda como a avenida São João…"


Que não por acaso Caetano Veloso bricola em sua canção "Sampa":


"Alguma coisa acontece no meu coração

Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João"


O poema Tristura de 1922 e a canção Sampa de 1978 igualmente iniciam com uma rima em -ão, com o mesmo par de palavras: "coração" e "João"  Uma rima que foge totalmente do esmero da poesia que foi hegemônica por séculos.  Mário de Andrade ao fazer do prefácio do Pauliceia Desvairada seu novo "tratado de versificação" eleva a rima em "-ão" a posição mais nobre de seus versos e Caetano retoma essa tradição. 


O poeta Mário também retoma o elogio que fez às assonâncias das obras de Homero e esse recurso retorna recorrentemente nos poemas de sua própria lavra. Os poemas de Paulicéia não possuem rimas externas com frequência, sua harmonia se assenta pelas diversas rimas internas, aliterações e assonâncias.


O primeiro poema do livro: “Inspiração” já nos entrega uma amostra da assonância que será traço comum ao longo dos poemas da Paulicéia:

“Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes... 

Perfumes de Paris... Arys!

Onde vemos em apenas dois versos a assonância de "sutis'', “Paris” e “Arys”, a rima interna entre as palavras: “ciúmes e “Perfumes” e também a aliteração de “Perfumes” e “Paris”. 


Também presente no poema “O Trovador” :

“Intermitentemente...

na minha alma doente como um longo som redondo…”


Percebemos as aliterações de “m+vogal” a rima interna e externa de “intermitentemente” e “doente” e finaliza com outra assonância em: “longo e “redondo


Entre os versos de “Rua São Bento” temos:  “Pobres brisas sem pecias lisas a alisar!”  com a similaridade dos sons de “Pobres” e “Brisas” e a aliteração de “pelúcias”, “lisas” e “alisar.


Em “Os cortejos”

Monotonias das minhas retinas... 

Serpentinas de entes frementes a se desenrolar...

Percebemos as rimas internas de “Monotonias”, “retinas” "serpentinas" e a assonância de  “entes” e “frementes”


Na Canção Sampa do Caetano Veloso podemos ver a inspiração estilística desse recurso nos versos:

Da dura poesia concreta de tuas esquinas

Da deselegância discreta de tuas meninas”


e nos versos:

“Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto

Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto


As assonâncias, aliterações e rimas internas são marcas estilísticas do livro Paulicéia Desvairada e também da canção Sampa. Mário de Andrade construiu uma estrutura poética para seu livro que foi um marco da visão da cidade de São Paulo. A sua visão da cidade e sua estilística foram usados por Caetano Veloso para recompor o cenário da cidade meio século após a publicação de Mário. É como se apesar das formas aparentes terem se modificado muito ao longo desse período a estrutura, sua essência, fosse a mesma. O uso dos mesmos recursos é uma forma de dizer que a São Paulo de Paulicéia e de Sampa ainda são a mesma cidade apesar do abismo do tempo e do primeiro olhar que são vistas.


Mário de Andrade propõe um novo tipo de verso, o verso harmônico em contraposição ao verso melódico. Em seu prefácio apresenta o verso melódico como o verso tradicional, estruturado em uma lógica gramatical, contrapondo a ele o verso harmônico cuja principal natureza é de ser liberto da estrutura de sentido, da gramática. O Verso harmônico reverbera sua sonoridade independente da conexão com o sentido. Seu som é o que mais importa.

Vemos versos harmônicos no poema “Inspiração”

“Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e ouro…”


No poema “Rua de São Bento”

“A cainçalha... A Bolsa... As jogatinas…”


e também no poema “Tietê”

“Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas... Povoar! 

Ritmos de Brecheret!... E a santificação da morte!

Foram-se os ouros!... E o hoje das turmalinas!...”


Caetano também se inspira na Pauliceia e sua teoria engenhosa ao compor os versos “Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba

Mais possível novo quilombo de Zumbi

E os novos baianos passeiam na tua garoa” 


Ao comparar os versos de “Tietê” com os de “Sampa”  temos um primeiro verso harmônico cuja sonoridade é sensivelmente mais apreensível que seu conteúdo discursivo seguido de versos onde a sonoridade apesar de forte ganha um conteúdo discursivo mais evidente e de apreensão imediata.


A mimesis estilística que Caetano Veloso faz da obra Paulicéia Desvairada em Sampa, tem no prefácio interessantíssimo da obra de Mário de Andrade o conjunto de seus contraines usando os princípios do OULIPO pois acredito que a Tropicália não importou apenas as guitarras elétricas mas  também toda a vanguarda estrangeira. Todos os experimentos de expressão da linguagem musical e também poética.  Sampa tem em seus versos um diálogo nos mesmos termos daqueles presentes na Paulicéia. O cantor baiano ao revisitar a poética do escritor paulista e resgatar sua estilística  suscita e instiga toda sorte de questões e nos trás mais perguntas sobre a força que ergue e destrói coisas belas.


A Garoa que cai sobre a Paulicéia é a mesma que molha Sampa? Os demônios do progresso que inquietaram Mário, são os mesmos que Caetano encontra nas duras esquinas de Sampa? O timbre da Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa com os Demônios da Garoa, fala da mesma São Paulo, aquela da semana de 22, que muito tempo depois, abraçou a tropicália. Aquela que se embalou no antropofagismo que misturou guitarras elétricas com ritmos brasileiríssimos? Qual a verdadeira realidade que interliga tanto sonho feliz de cidade?


Mário de Andrade também escreveu Paulicéia Desvairada para percorrer a cidade de São Paulo em seus momentos de transformação, inaugurando um novo século,  enxerga ali suas contradições, recorta e cola suas impressões do que viria a ser a mais importante metrópole da América Latina. Caetano Veloso, mestre da bricolagem musical, encontra uma São Paulo que não é mais uma promessa de progresso mas sim o símbolo mais pujante da industrialização do país. Há indícios para desenhar uma cartografia literária que une a poética de Caetano a prosa de Mário, contornos que marcam o estilo de ambos ajudaram a moldar a identidade que São Paulo tem hoje.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Sinfonia

seu sexo em si
meu sexo bem lá
um sexo tão só
num sexo que ar fá
mais sexo pra mi
seu sexo de ré
só sexo sem dó

sábado, 15 de maio de 2021

Eu não queria te dizer

Sou meu vendaval:
o meu pé de vento
serve de sustento
pruma flor astral

São rosas de vidro
que contra meu peito
quebram e me cortam
com amor e doçura

Gotas de meu sangue
mancham minha blusa
branca de algodão
que a fome recusa

Sexo na varanda
e macarronada
Beijos pra torcida
e fim da estrada