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Poeta e apenas poeta

Já me olharam espantados quando digo que sou poeta e só poeta. Que não canto, nem danço, nem atuo, nem pinto, nem bordo, que "só" ...

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Road Trip

A história que conto agora
já até se foi sem ter sido
era segredo muito embora
por todos fosse sabido
menos pois pros dois viventes
que mais que muito se amavam 

Ela santa, ele vilão
tanta fome revelada
Barroca igreja, emoção
uma aventura ensaiada
e no carro o vidro enturva
pelos dois em pura bala

Era assim antes de outrora
o seu fogo ensandecido
que a boca sedenta chora
por onde é bem sabido
eis tão amados amantes
que na prosa planejavam:

"Belo Horizonte é visão
mas não terra destinada
das Minas Gerais sairão 
pela noite na calada 
numa lua que murmura
pra estrela vestindo gala"

Sem feito o plano embolora
mas do seu jeito sabido
ela é musa que colabora
c'o jeito desatinado
dele de amar tal ardente
fome que jamais amansam 

Road trip por todo sertão
uma viagem ousada
trinta horas na direção
ao lado da moça amada
os sonhos no porta-luvas
pois a estrada bem embala

E trocando a marcha rola
um carinho dele atrevido
ela compraz e lhe consola
os dedos num divertido
de dois corpos e uma mente
que do mesmo sopro aspiram

Cecília, seu coração
é guia e norteia em cada
quilômetro do estradão
mas a sua ritimada 
vem do gole de fanta uva
que a doçura lhes iguala

São vintage, na vitrola
do carro vem o alarido
de Caetano e cantarola
ela com mais um pedido
que gata pede somente
um Raul que jamais olvidam

Nas letras duma canção
pelas rodas pela estrada 
embalando na paixão
ao lado da moça amada
os dois nas retas, nas curvas,
desejos no porta-malas

A vontade descontrola
encosta o carro perdido
E os lábios dela devora
pelo convite atrevido
dela de assim sutilmente 
revelar o que ambos clamam

No cerrado, imensidão
tudo pois pruma picada
de aventura e de ilusão
que esperam lá na chegada
serão eles sol e chuva
duma voz que nunca cala

Vida dentro mundo fora
o carro desapressado
sem ter pra chegar sua hora
no tempo do delicado
deleite que tal corrente
seus sutis elos se selam

Cada serra e serração
e cada casa caiada
testemunham nesse chão
os amantes da cilada
embebidos na araruva
e segredos de cabala

Entre  um causo e uma história
o sol desce avermelhado
a paisagem rememora
o mundo dos exilados
seu contento descontente
é aquilo que mais esperam

Querem canjica e quentão
festa junina ensaiada
nas terras desse sertão
numa noite aluminada
pela fé na ciência pura
e na utopia que espalha

domingo, 6 de junho de 2021

Metapoética

Minha poética expande
pelo meu lirismo e pede
pra queimar esse baralho
de verso-livre-espantalho

Eu não sou Jack, não sou Gandhi
o meu modus operandi
conserta meu verso falho
metro e rima sem atalho

Corto frases, conto sílabas
retalho versos pra forma
que confirma a eufonia

E todo e qualquer escriba
que nunca se conforma
sou eu nessa poesia

sábado, 5 de junho de 2021

Confessionário

Nosso altar, nossa benesse
essas são noites tão frias
sem aquarela, sem prece
de suas mãos sobre as minhas 

Irmã minha que padece
cúmplice da mais vadia
vontade que nos aquece
e sonha todos os dias

Cecília, pelos seus olhos
eu me via bem melhor
do que sou, fui ou serei

Sim, sou eu de sonhos falhos
mas ainda sei de cor
os olhos que mais amei

quarta-feira, 26 de maio de 2021

terça-feira, 25 de maio de 2021

Sampa, uma mímesis da Paulicéia Desvairada

Mário de Andrade dá como mola propulsora de seu prefácio como advindo de uma ideia crítica de um editor ao seu livro. A sugestão orientava para que o poeta criasse uma apresentação para seu livro de poemas, uma forma de orientar seus leitores na leitura de seus versos, entretanto questiono esse caráter meramente didático das páginas iniciais de seu livro. Há ali elementos que passam muito ao largo da mera explicação e são, sobretudo, uma prescrição de como a poesia irá se comportar pelas páginas posteriores do livro Paulicéia Desvairada.


Não costumo ler prefácios. Costumo partir logo para o texto propriamente dito, porém Mário de Andrade, ao nomear o seu como "Prefácio Interessantíssimo", aguçou minha curiosidade. Eu quis saber se era pretensão ou chiste do autor a motivação que o levava a inaugurar assim seu livro Paulicéia Desvairada. E posição do autor: “Aliás muito difícil nesta prosa saber onde termina a blague, onde principia a seriedade. Nem eu sei.” não facilita em nada essa investigação. Confesso que terminei o prefácio e li cada poema com essa dúvida em meu paladar. 


Seu prefácio é um convite à investigação, uma verdadeira armadilha de ideias colocadas, engenhosamente, umas sobre as outras. E ao confrontar poemas e prefácio surgem gratas surpresas esperadas. E tenho fortes motivos para acreditar que é jogo de cena do seu próprio lirismo quando afirma que  "Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita" e diz logo mais que seu prefácio é uma justificativa a posteriori da obra acabada.


A estrutura de seus versos é completamente contrária a essa afirmativa de escrita inconsciente há um cálculo, uma estruturação metódica verso após verso que cria toda uma estrutura dificílima de crer como obra de uma escrita não calculada. Entretanto, se o eu lírico se arroga de ser um demiurgo que pode falsear todas as palavras de sua obra. Ele não pode, ainda assim, se esquivar do fato que existe uma obra e esta obra, dentro de sua lógica interna, possui seu próprio valor de verdade.  


Por mais que, ao longo da sua introdução, a voz do texto reafirme a impossibilidade de saber a verdade. O texto a possui ( a verdade) mesmo que não possa ser extrapolada para além de suas páginas. A questão da flecha atingir o alvo ou de se atirar a flecha e depois pintar o alvo ao redor é uma questão que objetiva divertir o seu lirismo mais do que ser uma questão passível de resolução. Com essa aporia parto para a análise da possibilidade de que há sim uma lógica interna entre a prescrição que consta no prefácio e os poemas subsequentes.


Mário de Andrade em seu prefácio da Pauliceia Desvairada discorre longamente sobre a estrutura da poesia, propõe seu próprio método para se contrapor ao vigente e considerado por ele arcaico em comparação às outras artes como a música que há muitos séculos já teriam abandonado o uso de uma estrutura meramente melódica. E em oposição, a esta estrutura, propõe o verso harmônico e mais declara guerra à rima, lembrando que Homero dispensava as mesmas e tinha assonâncias admiráveis.  Entretanto, mantém aberto o espaço para a galhofa ao dizer que: "A língua brasileira é das mais ricas e sonoras. E possui o admirabilíssimo “ão”.  Porém o que parece ser uma piada descompromissada com a rima que é talvez a mais pobre da língua portuguesa, que os manuais da boa poesia recomendam evitar,  é na verdade a primeira prescrição de como se dará a poesia dessa obra.


Diz Brandão em seu Consciência e criação na poesia de Mário de Andrade:


“Nesse sentido é que me parece que os metapoemas de Mário de Andrade representam uma de suas contribuições para o "ajuste do pas so" da poesia brasileira com a concepção e a prática da poesia mo derna. Isso se dá na medida em que ele caminha pelos poemas, princi palmente no "PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO", rompendo sua unidade lírica através da fusão de elementos de teoria, de história, de confissão pessoal, de exemplos, de postulações críticas, etc., tudo fundido com os materiais e procedimentos criativos que ele tem à mão, incluindo-se também os seus próprios condicionamentos poéticos, re conhecidos ou não.”


Entretanto apesar de indicar os elementos constitutivos da poética que são indicados no prefácio Brandão não procura ao longo de seu texto investigar a presença e permanência dessas estruturas nos versos que compõe a Paulicéia Desvairada. 


O “prefácio interessantíssimo” é mais do que uma apresentação do seu texto, Mário de Andrade constrói um conjunto de regras, um sistema de normas e restrições com os quais irá construir os poemas do livro. Algo bem parecido com o que o OULIPO irá propor algumas décadas depois. Talvez Mário de Andrade seja também "um rato que constrói seu próprio labirinto de onde se propõe a sair.” tal qual os membros do OULIPO viriam a se identificar.


Como exemplo do percurso que o poeta segue em sua construção poética temos justamente o uso de rimas em ão como prescreveu em seu prefácio como aparece no início do poema "Paisagem nº1":

"Necessidade a prisão 

para que haja civilização?"


E também no poema Tristura:

"Profundo. Imundo meu coração... 

Olha o edifício: Matadouros da Continental. 

Os vícios viciaram-me na bajulação sem sacrifícios... 

Minha alma corcunda como a avenida São João…"


Que não por acaso Caetano Veloso bricola em sua canção "Sampa":


"Alguma coisa acontece no meu coração

Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João"


O poema Tristura de 1922 e a canção Sampa de 1978 igualmente iniciam com uma rima em -ão, com o mesmo par de palavras: "coração" e "João"  Uma rima que foge totalmente do esmero da poesia que foi hegemônica por séculos.  Mário de Andrade ao fazer do prefácio do Pauliceia Desvairada seu novo "tratado de versificação" eleva a rima em "-ão" a posição mais nobre de seus versos e Caetano retoma essa tradição. 


O poeta Mário também retoma o elogio que fez às assonâncias das obras de Homero e esse recurso retorna recorrentemente nos poemas de sua própria lavra. Os poemas de Paulicéia não possuem rimas externas com frequência, sua harmonia se assenta pelas diversas rimas internas, aliterações e assonâncias.


O primeiro poema do livro: “Inspiração” já nos entrega uma amostra da assonância que será traço comum ao longo dos poemas da Paulicéia:

“Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes... 

Perfumes de Paris... Arys!

Onde vemos em apenas dois versos a assonância de "sutis'', “Paris” e “Arys”, a rima interna entre as palavras: “ciúmes e “Perfumes” e também a aliteração de “Perfumes” e “Paris”. 


Também presente no poema “O Trovador” :

“Intermitentemente...

na minha alma doente como um longo som redondo…”


Percebemos as aliterações de “m+vogal” a rima interna e externa de “intermitentemente” e “doente” e finaliza com outra assonância em: “longo e “redondo


Entre os versos de “Rua São Bento” temos:  “Pobres brisas sem pecias lisas a alisar!”  com a similaridade dos sons de “Pobres” e “Brisas” e a aliteração de “pelúcias”, “lisas” e “alisar.


Em “Os cortejos”

Monotonias das minhas retinas... 

Serpentinas de entes frementes a se desenrolar...

Percebemos as rimas internas de “Monotonias”, “retinas” "serpentinas" e a assonância de  “entes” e “frementes”


Na Canção Sampa do Caetano Veloso podemos ver a inspiração estilística desse recurso nos versos:

Da dura poesia concreta de tuas esquinas

Da deselegância discreta de tuas meninas”


e nos versos:

“Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto

Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto


As assonâncias, aliterações e rimas internas são marcas estilísticas do livro Paulicéia Desvairada e também da canção Sampa. Mário de Andrade construiu uma estrutura poética para seu livro que foi um marco da visão da cidade de São Paulo. A sua visão da cidade e sua estilística foram usados por Caetano Veloso para recompor o cenário da cidade meio século após a publicação de Mário. É como se apesar das formas aparentes terem se modificado muito ao longo desse período a estrutura, sua essência, fosse a mesma. O uso dos mesmos recursos é uma forma de dizer que a São Paulo de Paulicéia e de Sampa ainda são a mesma cidade apesar do abismo do tempo e do primeiro olhar que são vistas.


Mário de Andrade propõe um novo tipo de verso, o verso harmônico em contraposição ao verso melódico. Em seu prefácio apresenta o verso melódico como o verso tradicional, estruturado em uma lógica gramatical, contrapondo a ele o verso harmônico cuja principal natureza é de ser liberto da estrutura de sentido, da gramática. O Verso harmônico reverbera sua sonoridade independente da conexão com o sentido. Seu som é o que mais importa.

Vemos versos harmônicos no poema “Inspiração”

“Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e ouro…”


No poema “Rua de São Bento”

“A cainçalha... A Bolsa... As jogatinas…”


e também no poema “Tietê”

“Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas... Povoar! 

Ritmos de Brecheret!... E a santificação da morte!

Foram-se os ouros!... E o hoje das turmalinas!...”


Caetano também se inspira na Pauliceia e sua teoria engenhosa ao compor os versos “Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba

Mais possível novo quilombo de Zumbi

E os novos baianos passeiam na tua garoa” 


Ao comparar os versos de “Tietê” com os de “Sampa”  temos um primeiro verso harmônico cuja sonoridade é sensivelmente mais apreensível que seu conteúdo discursivo seguido de versos onde a sonoridade apesar de forte ganha um conteúdo discursivo mais evidente e de apreensão imediata.


A mimesis estilística que Caetano Veloso faz da obra Paulicéia Desvairada em Sampa, tem no prefácio interessantíssimo da obra de Mário de Andrade o conjunto de seus contraines usando os princípios do OULIPO pois acredito que a Tropicália não importou apenas as guitarras elétricas mas  também toda a vanguarda estrangeira. Todos os experimentos de expressão da linguagem musical e também poética.  Sampa tem em seus versos um diálogo nos mesmos termos daqueles presentes na Paulicéia. O cantor baiano ao revisitar a poética do escritor paulista e resgatar sua estilística  suscita e instiga toda sorte de questões e nos trás mais perguntas sobre a força que ergue e destrói coisas belas.


A Garoa que cai sobre a Paulicéia é a mesma que molha Sampa? Os demônios do progresso que inquietaram Mário, são os mesmos que Caetano encontra nas duras esquinas de Sampa? O timbre da Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa com os Demônios da Garoa, fala da mesma São Paulo, aquela da semana de 22, que muito tempo depois, abraçou a tropicália. Aquela que se embalou no antropofagismo que misturou guitarras elétricas com ritmos brasileiríssimos? Qual a verdadeira realidade que interliga tanto sonho feliz de cidade?


Mário de Andrade também escreveu Paulicéia Desvairada para percorrer a cidade de São Paulo em seus momentos de transformação, inaugurando um novo século,  enxerga ali suas contradições, recorta e cola suas impressões do que viria a ser a mais importante metrópole da América Latina. Caetano Veloso, mestre da bricolagem musical, encontra uma São Paulo que não é mais uma promessa de progresso mas sim o símbolo mais pujante da industrialização do país. Há indícios para desenhar uma cartografia literária que une a poética de Caetano a prosa de Mário, contornos que marcam o estilo de ambos ajudaram a moldar a identidade que São Paulo tem hoje.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Sinfonia

seu sexo em si
meu sexo bem lá
um sexo tão só
num sexo que ar fá
mais sexo pra mi
seu sexo de ré
só sexo sem dó

sábado, 15 de maio de 2021

Eu não queria te dizer

Sou meu vendaval:
o meu pé de vento
serve de sustento
pruma flor astral

São rosas de vidro
que contra meu peito
quebram e me cortam
com amor e doçura

Gotas de meu sangue
mancham minha blusa
branca de algodão
que a fome recusa

Sexo na varanda
e macarronada
Beijos pra torcida
e fim da estrada

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Cachimbo D'água

Meu fumo, de levíssimas tragadas
um ato solitário, prazer
que atiça meu suavísssimo esquecer
de anéis de fumaça, bolhas d'água

Louvo as felicidades tão sagradas
da fumaça, dos pulmões, do meu ser
me entorpece, me atiça e faz viver
em tantos tragos nas cinzas apagadas

Seda, piteira e isqueiro par a páreo
e prontos pra dançar com meu veneno
nas médias medidas da escansão

Morros, montes, relevo solitário
da janela contemplo o belo extremo
Nuvens e prédios, uma só visão

segunda-feira, 26 de abril de 2021

excrementíssimo senhor

Das mentiras numa rede
sangue nas mãos e nas urnas
um copo de ódio sua sede
não mata mas rega as ruas

Justiça implora e lhe perde
as verdades das mais cruas
Telhado se fez parede
de vidro e regência nua

Casa de vidro é palácio
da milícia e da morte
que ceifa num só cardume

a vida que de tão frágil
esvai sem logro ou sorte
sob o mando dum estrume

quarta-feira, 7 de abril de 2021

sábado, 3 de abril de 2021

Aldravia 7

Quanta
Quarentena!
Sozinho
Sem 
Minha
Morena

Aldravia 6

Minha 
Glande
Penetra
Seu 
Esfíncter
Engole

Aldravia 5

Sol
Poente
Sangra
Vermelho
Todo
Céu

Aldravia 4

Meu
Falo
Seu
Felar
Gozo
Abundante

Aldravia 3

 Meus
Pés
Sua
Língua
Encontro
Perfeito