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Lucas de Castro Lisboa, que adotou o nome artístico de Castro Lisboa e a persona pública de "poeta sobre trilhos", é um poeta, edi...

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Narrativas do Deserto

Em uma praia, à noite, ouvi meu pai relembrar as histórias e anedotas de meu avô. Ele as contava empolgado, transmitia aquelas pequenas narrativas e me retornava a um tempo que eu mesmo nunca vivi. Contava como o caminhão ficou atolado e foi salvo por um sapo-boi gigante, que fez suas rodas subirem e descerem sob a força de seu coaxar. Meu pai contava também as aventuras e desventuras de uma ferrovia que ligava a Bahia a Minas Gerais pelas artérias do Vale do Jequitinhonha.

Se Benjamin estivesse aqui, talvez se espantasse ao ver que a comunicabilidade de seu narrador continua perene após ele mesmo ter decretado o indizível do pós-guerra. Pois, mesmo após a tragédia do fim da ferrovia — o surgimento do deserto alimentar naquela região, que não tinha mais como escoar sua produção e nada mais recebia senão donativos para aplacar a fome durante os anos 70, 80 e 90 do século passado —, a figura do narrador não se perdeu.

Denomina-se deserto alimentar o fenômeno em que determinada localidade é incapaz de suprir, de maneira nutritiva, as necessidades biológicas de seus habitantes por meio de produtos frescos e não ultraprocessados pela indústria alimentícia. Algo similar ao processo da incomunicabilidade do pós-guerra, pois, apesar de factualmente os indivíduos se comunicarem dentro de uma práxis, não havia mais a transmissão da experiência: o que era dito não nutria, era uma fala sem o poder encantatório da narrativa.

Ao transpor essa lógica do deserto alimentar para a teoria crítica de matriz frankfurtiana, é possível diagnosticar a existência de um deserto cultural análogo, no qual toda a produção simbólica disponível é aquela que sucumbiu ao processo de massificação da indústria cultural, conforme defendido por Adorno, Marcuse e Horkheimer. Nesse cenário, o ambiente social é inundado por mercadorias culturais que, tal qual o alimento ultraprocessado, são desenhadas para a saciedade imediata e a fácil digestão, mas carecem de valor nutricional para o intelecto e para a sensibilidade. Enquanto o alimento fresco exige preparo e a arte autêntica (erudita ou popular) exige o esforço da interpretação, a indústria cultural entrega o produto previamente mastigado, substituindo a experiência estética pela gratificação instantânea.

No entanto, emerge aqui uma inversão sociológica fundamental que diferencia o deserto alimentar do cultural. Se o deserto nutricional aflige majoritariamente as camadas mais desvalidas da sociedade — dado que o ultraprocessado é economicamente mais acessível que o alimento fresco —, no deserto cultural são as classes médias que mais sofrem de sua ínfima variedade e homogeneidade. Isso ocorre porque a classe média é o alvo preferencial e o consumidor cativo das engrenagens midiáticas e dos algoritmos de distribuição em massa. Confinada em bolhas de consumo que oferecem a ilusão de escolha, ela se vê cercada por uma dieta de entretenimento padronizada, em que o que parece ser “novo” é apenas uma reembalagem do mesmo. É o que Adorno define como pseudo-individuação: a oferta de produtos que parecem distintos para que o consumidor sinta que possui um gosto pessoal quando, na verdade, todos estão consumindo a mesma fórmula “ultraprocessada” pela lógica do lucro.

Por outro lado, a precariedade das periferias acaba por atuar, paradoxalmente, como um escudo preservativo contra a estandardização total. Longe dos tentáculos mais imediatos das tramas comerciais e da higienização estética das grandes curadorias, a periferia mantém uma pulsão do novo e uma vitalidade orgânica. Ali, a cultura não nasce como mercadoria, mas como necessidade de existência e expressão comunitária, resultando em produções “frescas” que ainda não foram capturadas e neutralizadas pelo sistema. Enquanto a classe média habita um deserto de repetições e fórmulas prontas, a periferia produz o que há de mais nutritivo e autêntico na cultura popular, justamente por estar situada em uma zona de atrito e resistência que a indústria cultural ainda não conseguiu converter inteiramente em caloria vazia. Assim, o deserto cultural se revela não como uma ausência de consumo, mas como uma hipertrofia do consumo de baixa qualidade, aprisionando aqueles que possuem maior acesso financeiro em uma desnutrição subjetiva profunda.

Convém anotar, contudo, que nem toda construção cultural nascida na periferia está imune aos tentáculos da indústria cultural. Muitas de suas produções também passam a obedecer às fórmulas algorítmicas de engajamento e visibilidade. O mesmo se pode dizer daquilo que é processado, consumido e até mesmo produzido pela classe média: tanto na arte erudita quanto na popular, há obras que incorrem na ilusão de escapar à lógica da indústria cultural, assim como há aquelas que, de modo consciente ou estratégico, dela se valem para sua própria fruição ou para sua conversão em commodity. Dialeticamente, nenhuma produção simbólica, seja ela oriunda das periferias ou das classes médias, se encontra fora do campo de forças da indústria cultural. Não há exterioridade pura ao sistema: mesmo as formas que emergem como negação ou resistência tendem a ser rapidamente mediadas, reabsorvidas e reconfiguradas segundo as exigências de circulação, visibilidade e lucro. Do mesmo modo, produções geradas no interior da classe média, tanto no âmbito da arte erudita quanto da popular, oscilam entre a ilusão de autonomia estética e a adesão consciente à lógica mercantil, convertendo a obra em mercadoria e a experiência em consumo. O que se apresenta, portanto, não é uma oposição entre autenticidade e corrupção, mas um campo de tensões no qual cada forma cultural carrega, simultaneamente, momentos de negatividade e de integração, revelando o caráter contraditório da cultura sob o capitalismo tardio.

O deserto cultural interdita a transmissão da experiência: não há narrador possível em meio à influência dos influencers, construída segundo algoritmos e alicerçada na lógica do consumo. Entretanto, pela mesma lógica dialética que desertifica a localidade de alimentos e de cultura, também se limita o alcance dos media até as mais distantes periferias, que se tornam, assim, o berço de novos narradores, de novas aldeias e de novos mares, capazes de novamente comunicar e transmitir a experiência que nos torna humanos.