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O autor

Lucas de Castro Lisboa, que adotou o nome artístico de Castro Lisboa e a persona pública de "poeta sobre trilhos", é um poeta, edi...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Achados & Perdidos S.A.

Chovia, e o almoxarife registrou:

— Ana —
sombrinha que jamais teve.
Objeto encontrado, protocolo assinado.

— Marina —
coração que não perdera ali.
Objeto encontrado, protocolo assinado.

p.s.1:
A válvula mitral gasta era perfeita, vazava, 
e enchia de frio a barriga de Marina. 

p.s.2:
Ana chegou em casa seca.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Achados & Perdidos S.A.

Ana, num momento de tempestade, busca um guarda-chuva orfão na sessão de achados e perdidos. Chega e, sem culpa ou pudor, diz: “perdi uma sombrinha preta de cabo marrom”,

E logra que, entre tantas combinações de plástico, madeira e metal, fosse esta a mais comum. Depois, assina o protocolo e se evade sob os olhos desinteressados do almoxarife, que sequer se dá ao trabalho de questionar.

Mas Marina, atormentada, vendo naufragar suas esperanças, queria um coração. Dirigiu-se ela ao setor em que se encontrava de tudo que, por esquecimento ou descarte, estava ali esperando pelo antigo dono: “sim, um coração, vermelho, pulsante, com dois ventrículos, uma veia cava, uma artéria aorta, quatro válvulas; a mitral está um pouco desgastada”.

O almoxarife calçou suas luvas cirúrgicas, remexeu entre pulmões, olhos, fígados e rins até achar a coleção de corações. Lá estavam eles; repassou a descrição de Marina — “válvula mitral” — e trouxe para ela dois exemplares.

Marina olhou, examinou e, tentando passar naturalidade, escolheu, escondendo o tremor de sua voz: “o da direita”. 

O almoxarife, desinteressado, passa o protocolo; ela assina, já divagando consigo sobre se sua sorte não mudava, a partir de agora, ao fazer as coisas direito.

Em seu quarto, acoplou no peito o novo coração, tudo perfeito; até mesmo o pequeno vazamento da válvula mitral lhe aconchegava, ao gotejar lentamente por seus órgãos internos até chegar ao estômago, provocando um leve formigar, como o frio na barriga que já sentiu um dia.

Ana chegou em casa, seca. 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Domingo à tarde

Leio e passo um espresso
café forte livro bom
que desce em mim imerso
entre gosto, cheiro e som

eu sequer sabia que tinha
uma felina na caça
que toca roça ronrona
e nas pernas se entrelaça

mexo no pelo e lhe vejo
mesmo vermelho batom 
e acesso seu sabor aceso
morde meu dedo no tom

ela me mima e se aninha
no piso das minhas calças 
como me nina a gatinha
nina meus pés numa valsa