— Ana —
sombrinha que jamais teve.
Objeto encontrado, protocolo assinado.
— Marina —
coração que não perdera ali.
Objeto encontrado, protocolo assinado.
p.s.1:
e enchia de frio a barriga de Marina.
p.s.2:
Ana chegou em casa seca.
Lucas de Castro Lisboa, que adotou o nome artístico de Castro Lisboa e a persona pública de "poeta sobre trilhos", é um poeta, edi...
Ana, num momento de tempestade, busca um guarda-chuva orfão na sessão de achados e perdidos. Chega e, sem culpa ou pudor, diz: “perdi uma sombrinha preta de cabo marrom”,
E logra que, entre tantas combinações de plástico, madeira e metal, fosse esta a mais comum. Depois, assina o protocolo e se evade sob os olhos desinteressados do almoxarife, que sequer se dá ao trabalho de questionar.
Mas Marina, atormentada, vendo naufragar suas esperanças, queria um coração. Dirigiu-se ela ao setor em que se encontrava de tudo que, por esquecimento ou descarte, estava ali esperando pelo antigo dono: “sim, um coração, vermelho, pulsante, com dois ventrículos, uma veia cava, uma artéria aorta, quatro válvulas; a mitral está um pouco desgastada”.
O almoxarife calçou suas luvas cirúrgicas, remexeu entre pulmões, olhos, fígados e rins até achar a coleção de corações. Lá estavam eles; repassou a descrição de Marina — “válvula mitral” — e trouxe para ela dois exemplares.
Marina olhou, examinou e, tentando passar naturalidade, escolheu, escondendo o tremor de sua voz: “o da direita”.
O almoxarife, desinteressado, passa o protocolo; ela assina, já divagando consigo sobre se sua sorte não mudava, a partir de agora, ao fazer as coisas direito.
Em seu quarto, acoplou no peito o novo coração, tudo perfeito; até mesmo o pequeno vazamento da válvula mitral lhe aconchegava, ao gotejar lentamente por seus órgãos internos até chegar ao estômago, provocando um leve formigar, como o frio na barriga que já sentiu um dia.
Ana chegou em casa, seca.