Há quem, em momentos de tempestade, busque um guarda-chuva alheio na sessão de achados e perdidos. Chega, como se realmente buscasse algo extraviado, e sem culpa ou pudor diz: "perdi uma sombrinha preta de cabo marrom" logrando que entre tantas combinacoes de plástico, madeira e metal esta fosse a mais comum. Depois assina o protocolo e se evade sob os olhos desinteressados do almoxarife que sequer se dá ao trabalho de questionar a veracidade de quem alega ser dele aquele objeto tão prosaico.
Mas Marina, atormentada, vendo naufragar suas esperanças, queria um coração. Se dirigiu ela ao setor em que se encontrava de tudo que por esquecimento ou descarte estava ali esperando pelo antigo dono ou por um novo larápio: " sim, um coração, vermelho, pulsante com dois ventrículos, uma veia cava, uma arteria aorta e as quatro válvulas, a mitral está um pouco desgastada nas pontas"
O almoxarife calçou suas luvas cirúrgicas, remexeu entre pulmões, olhos, fígados e rins até achar a coleção do corações. Lá estavam eles repassou a descrição de Marina "válvula mitral" e trouxe pra ela dois exemplares que cabiam em sua descrição.
Marina olhou, examinou e tentando passar naturalidade escolheu escondendo o tremor de sua voz: "o da direita". O almoxarife desinteressados passa o protocolo, ela assina já divagando consigo sobre se sua sorte não mudava, a partir de agora, ao fazer as coisas direito?
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