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Poeta e apenas poeta

Já me olharam espantados quando digo que sou poeta e só poeta. Que não canto, nem danço, nem atuo, nem pinto, nem bordo, que "só" ...

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O mito do talento artístico e a valorização do artista.




O quanto o conceito de arte enquanto dom atrapalha a percepção que nós temos do artista enquanto um sujeito que trabalha e merece ser remunerado pelo que faz?

Quando pensamos que o que o artista faz é um talento inato e que dispensa um esforço, estudo e treino passamos a considerá-lo como inferior e distinto das outra ocupações vistas como dispendiosas, cansativas e até sofridas. 

Conseguimos enxergar o suor na testa do pedreiro, os anos de estudo de um advogado, as olheiras de plantão após plantão do médico. Mas o artista cujo trabalho passa por fazer com que sua obra soe natural, fluida, leve e de certo fácil é bem mais difícil enxergar as noites em claro do poeta com seus versos, a dor da bailarina que sorri enquanto dança, os ensaios exaustivos do ator antes do monólogo. 

Seja sob o palco, na moldura ou dentro do livro o trabalho do artista de encantar seu público parece bem menor quando colocamos a culpa daquela beleza em um talento místico, em uma virtude inoculada por uma musa inspiradora. 

Acredito que o conceito de talento inato é uma ficção muito perniciosa ao artista. Apesar de seu esforço muitas vezes dever ser escondido por questões estéticas na apresentação final da obra o mesmo não deve ser desmerecido e colocado como inexistente em virtude de uma "alma de artista" ou qualquer coisa que valha.


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