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Poeta e apenas poeta

Já me olharam espantados quando digo que sou poeta e só poeta. Que não canto, nem danço, nem atuo, nem pinto, nem bordo, que "só" ...

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Encruzilhada

Não dá para ser tolerante com quem prega a intolerância. Não dá para ser democrático,com quem prega a ditadura. Não dá para amar, quem prega o ódio.Se você apoia a tortura, a censura o ódio não serei tolerante e aceitarei seu apoio ao crime como mera opinião.

Sua posição ameaça diretamente a minha vida pois não sou viado mas pareço viado, ando com viado e amo meus amigos viados. E cada um que morre, tem medo e é expulso de casa, da comunidade, da igreja, da família e dos amigos tem em mim a empatia de que poderia ser eu. E que de certa forma é.

Não sou negro mas também não sou branco e dói em mim cada negro que é barrado, ameaçado, humilhado e assassinado por ser negro. Como posso viver bem se eu passo pela blitz e meu amigo negro não? Como posso ficar em paz se lhe negam tudo até o pão? Ressentimento contra cota não se faz no meu peito não.

Não sou mulher mas amo as mulheres da minha vida, são meus exemplos na poesia, na política, no dia a dia e no amor e dói em cada vez que vejo uma presa onde não gostaria de estar, sendo menos que gostaria de ser por ser mulher.

Não sou religioso, pelo contrário sou ateu, mas  a liberdade de crença e não crença está igualmente ameaçada pra mim e por todos que não prestam vênia pro mesmo Deus único. Posso não crer nos seus deuses, mas cada orixá, cada deidade que é perseguida tem por trás pessoas com seu direito violado, cada terreiro destruído, queimado me faz temer que posso ser o próximo a ir pra fogueira.

Tenho meu teto, meu pai tenta tocar a pequena fazenda que era da família como meu avô e depois minha avó fizeram e por isso vejo os sem casa e terra como meus irmãos,  desejando que eles tenham seu canto para morar e trabalhar. Com tanto latifúndio, com tanta casa vazia. Não quero mais que recebam tiros quando pedem dignidade. Não quero mais que vivam nômades quando querem transformar o campo e a cidade.

Temos finalmente a cara verdadeira ao sol de quem sempre se escondia atrás de outros discurssos. Eu não tenho mais medo hoje do que eu tinha há 4 anos.  Pois vocês que viviam nas sombras já estavam aí votando da mesma forma nos mesmos candidatos.  Já pensavam como pensam hoje só não tinham a coragem de mostrar a cara. 

Nossos racismo velado, nossa falsa conciliação de classes ou mito do Brasil cordial finalmente cai por terra. Vocês que sempre sabotaram nosso país, nossa esperança num país mais justo e igual agora falam isso de peito aberto. Como é bom isso!

Falam agora abertamente pois não toleram o pouco progresso que tivermos ao longo desses anos, não toleram que os negros  possam ocupar uma cadeira nas universidades, que gente com "cara de empregada e porteiro" possa ter uma vida digna, ser quem seus sonhos quiserem, não toleram um casal andar de mãos dadas apaixonados se esse casal não for formado do jeito que vocês querem,  não toleram que os bens de consumo estejam acessíveis a todos, temem que nos vermelhos tomemos seus Palios parcelados pois acreditam que é possuir bens de consumo que faz de alguém rico. 

Não, vocês não são ricos, não eu não sou rico por viver com dignidade. O que eu e vocês temos acesso é o mínimo  e se sentir afrontado por cada vez mais e mais pessoas possam viver assim é mesquinho. Quero mais e mais aeroportos com cara de rodoviárias e rodoviárias às moscas pois teríamos as ferrovias que seus idolatrados milicos desmancharam.

Como gostaria que fosse minimamente verdadeiro o delírio da URSAL e da ameaça comunista! Nesses treze anos que vivemos de justiça social nunca em tempo algum caminhamos para essa direção. Caminhamos sim em direção a uma economia menos subalterna, menos precária e dependente de mão-de-obra barata.  Não é exatamente o que eu queria e nem faz sentido exigir isso do partido que elegermos, revolução nunca fez parte do plano de governo de 2002 pra cá.

Costumo dizer que não sou socialista e sim socioegoista pois o único jeito de termos a tão sonhada segurança, a tão sonhada liberdade de ir e vir sem medo não é com armas é com justiça social e fim a guerra às drogas.  Só vamos poder andar em paz nas ruas quando o vício virar questão de saúde. O crackudo só existe por essa guerra é um subproduto que corrói toda a sociedade e que a violência que vocês pregam nunca será capaz de eliminar. Sou socioegoista pois sei que só viverei em paz no dia que todo mundo tiver o seu mínimo garantido, sem isso o pouco que tenho é visto com cobiça máxima, está ameaçado e não há arma no mundo que me defenda todo o tempo o tempo todo.

Minha avó,fazendo piquete na estrada e enfrentando advogado apontando arma pro seu peito para não deixar o rio de sua cidade secar, me ensinou desde pequeno que nós precisamos lutar por nossa existência. Temos que ser resistência,  temos que fazer valer o bem para todos e não somente para o cidadão de bens que um ou outro possa ser ou sonha ser.

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