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Poeta e apenas poeta

Já me olharam espantados quando digo que sou poeta e só poeta. Que não canto, nem danço, nem atuo, nem pinto, nem bordo, que "só" ...

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Ensaio sobre o caráter estético do erro.

“Prazer de sentir o dedo,
no buraco da meia furada...
Surpresa em ter reparado,
na minha unha mal cortada!”

(Detalhes, Lucas C. Lisboa)

Uma reflexão a respeito da metafísica do nada em sua relação com o trabalho de estruturação de idéias expressas e seu poder de fascinação.

Durante uma aula de Antropologia Filosófica, meu professor, em sua explanação a respeito da metafísica e ontologia em sua evolução e diálogo entre Hegel, Shopenhauer, Nietzche e Heidegger, contou uma metáfora (em minha interpretação evidentemente):

A rede de pesca é composta tanto por suas linhas quanto por seus espaços vazios. Quando seus espaços vazios são grandes por demais (ou há uma falha em seu padrão) deixa vazar o pescado almejado.

Mas, se por outro lado, se não houver espaços vazios, não há braços que tenham força para trazê-la de volta ao barco e mesmo se houver, sem os espaços vazios, não há seleção do que é pescado, trazendo toda a sorte de coisas indistintamente: pedras, peixes, ostras, água...

Traçando um paralelo: O mesmo ocorre com uma estrutura de pensamento, obra literária, teses filosóficas e congêneres (que chamarei a partir de agora simplesmente de obra). Julgo que preencher todas as lacunas não é desejável e, creio eu, até mesmo impossível.

O não-dito é necessário e vital para sua efetividade e interpretatividade. O Poder de impacto de uma obra não está só em sua coerência e concisão, mas também em seus aspectos de prolixidade e contradição.

Não obstante, uma justa medida, entre o ordenamento e a imprecisão também não é algo a ser tão almejado assim. O que importa essencialmente ao dito é sua capacidade de pescar o interlocutor e fazê-lo pensar, digredir, em cada acerto, mas também em cada erro presente ali.

As congruências e validades de um texto decerto que permitem que se interesse por ele, mas, por não poucas vezes, são seus paradoxos e incongruências que causam o fascínio e a paixão por uma obra. E, sem sombra de dúvida, não é o mero interesse que faz alguém se debruçar sob uma obra para desvendá-la e sim a paixão despertada.

2 comentários:

Eliany disse...

Lucas, muito bacana seu blog! Bem interessante!!

Abraços

Carlos, domador de quimeras aposentado e antigo Imaginauta disse...

Interessante. Se eu fosse junguiano, diria que eu haver encontrado este breve ensaio seu foi uma sincronicidade. Mas prefiro dizer que foi coisa do acaso.

Alguns pensadores renascentistas, como Maquiavel, tentaram justamente fugir do sistema filosófico, por acreditarem que um sistema, embora fosse um avanço na forma de pensar, era muitas vezes um obstáculo ao próprio pensamento, e por isso tentaram pensar de modo não sistemático. Algumas pessoas chegam a confundir certos pensadores desse períodos com escritores, literatos, por serem por vezes incoerentes e contraditórios, como Montaigne, que criou o gênero do ensaio.

Mas não vemos contradição quando lemos um Heidegger ou um Nietzsche. E hoje, na filosofia, é muito difícil alguém levar a sério um pensador que se contradiga, ou que seja confuso. Alguns ainda chamam Deleuze de literato, não filósofo.

Em todo caso, já me alonguei nesse comentário. É que gostei do seu ensaio. Foi como ouvir o som de um sino de bronze despertando pela manhã certos devaneios que me habitam.